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     Era considerável a expectativa sobre a prestação da Rússia no arranque do Mundial 2018, em solo caseiro. A notória falta de identidade, uma percentagem vitoriosa de apenas 25% com Stanislav Cherchesov e fases finais de grandes competições tipicamente fracas colocava muitos pontos de interrogação sobre a anfitriã que, pelo menos durante os próximos dias, acaba por apaziguar a crítica. De notar que a Arábia Saudita pouco se opôs, parecendo até contrariados em campo, mas os momentos de brilhantismo russo foram absolutamente fundamentais para levar uma expectativa alta para os próximos dias de Mundial.

     Como é típico no arranque de qualquer competição de renome, os nervos e o respeito mútuo fazem com que os encontros inaugurais acabem por ser atípicos no ponto de vista do entusiasmo e dos grandes momentos, com equipas fechadas que procuram, sobretudo, estudar-se e prevenir erros fatais. E embora pudesse ser o caso na tarde de hoje, a (pouca) resistência que a Arábia Saudita ofereceu permitiu que a partida tivesse apenas um rumo possível. Os momentos de mestria e exibições absolutamente fantásticas de Denis Cheryshev e Aleksandr Golovin trataram de colocar o resultado final com números tão expressivos.

     Num dia absolutamente perfeito para as cores russas naquele que foi um início fantástico para o FIFA World Cup 2018, a Crónica Futebolística descreve agora o melhor e o pior do 1º dia de competição.

     + ALEKSANDR GOLOVINcotado por formações de renome de futebol europeu como a Juventus, o motor da seleção russa não fez nada para abrandar o interesse. Carimbando uma exibição imensa, o médio do CSKA jogou numa cidade que tão bem conhece e tem agora nas mãos a batuta que teoricamente era de Alan Dzagoev, antes da infeliz lesão do seu compatriota e colega de equipa. Golovin foi o principal obreiro da goleada, com duas assistências em seu nome e um estonteante golo de livre que acabou por ser o último lance da partida, já para além dos 3 minutos de compensação. Por vezes lento a soltar a bola ou a analisar a linha de passe mais eficaz, a quase perfeita de Golovin em todos os momentos do jogo - embora defensivamente o trabalho tivesse sido pouco extenuante, dando maior liberdade ofensiva - faz dele, até ao momento, a precoce figura do Mundial.

     + DENIS CHERYSHEV Muito facilmente também um candidato a homem do jogo (e assim acabou por ser eleito pela FIFA), o jogador do Villarreal fez mais do que a sua obrigação ao ser substituído 'a frio', ainda na primeira parte, depois da triste lesão de Alan Dzagoev que, ao poder afirmar-se de forma definitiva no plano internacional, saiu ingloriamente. Jogando mais próximo do flanco esquerdo - e deixando também Golovin mais solto como médio central de características mais ofensivas -, Cheryshev sentou dois adversários antes de fazer o seu 1º golo na partida, selando a sua conta pessoal com uma trivela absolutamente fantástica que seria indubitavelmente o momento da tarde... até ao livre exímio do já mencionado Aleksandr Golovin. A verdade é que não é possível tirar mérito a Cheryshev: lançado repentinamente na partida, acabou por ser a faísca que os russos necessitavam para conseguir um resultado mais abastado e registar uma diferença de golos, que tanto é necessário neste grupo que se pode revelar verdadeiramente imprevisível.

     - FEDOR SMOLOV O maior goleador do lote russo acabou por passar despercebido durante a partida. Com múltiplas temporadas a marcar mais de 15 golos pelo Krasnodar, o veloz avançado acabou por passar completamente ao lado da partida. Pouco lúcido e distante do que se passava em campo, o ponta-de-lança acabou por ser substituído sem qualquer remate efetuado em 70 minutos, tendo a Rússia procurado inspiração nos criativos Golovin e Cheryshev. Não constituindo uma ameaça direta às redes da Arábia Saudita, Smolov acabou por ficar muito aquém do esperado naquele que seria, teoricamente, o jogo mais acessível para a formação anfitriã no grupo. Tendo marcado pouco depois de entrar na partida para o lugar de Smolov, o compatriota Artem Dzyuba - menos móvel, mas mais forte e clínico na área - acabou por marcar e a titularidade do número 1 do ataque russo fica, agora, comprometida.

     - JUAN ANTONIO PIZZI O técnico natural da Argentina, e curiosamente antigo internacional espanhol, acabou por comandar uma equipa sem ideias, sem ritmo e, muito fracamente, sem talento para pertencer a uma grande competição, tendo em conta o que se viu na tarde de hoje em Moscovo. Pese embora o desafio fosse exigente, a formação saudita começou e terminou a partida da mesma forma atípica, tímida e insonsa. Não é uma questão de jogar com as armas disponíveis, porque a verdade é que a Arábia Saudita não mostrou ter armas suficientemente eficazes, fosse em que momento do jogo fosse. O único fator positivo da equipa asiática durante a partida foi a superioridade na posse de bola (61%) que, mesmo assim, acabou por ser inocente e não causar qualquer perigo às redes de Akinfeev, que não teve de parar um remate à sua baliza durante a partida. Muito trabalho terá a formação de Juan Antonio Pizzi para levar para casa algo que não seja, em bom português, um saco cheio.

Luís Barreira,
Crónica Futebolística

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     A expectativa e a ansiedade terminam. O estômago às voltas transforma-se em alegria ou desespero. A bola finalmente rola. Arranca hoje o FIFA World Cup 2018 na Rússia, com trinta e duas seleções a lutar pelos 6 quilogramas de ouro e o título de melhor do mundo. Com os habituais candidatos e as sempre entusiasmantes surpresas a Alemanha defende o título numa competição onde, como há muito já não acontecia, é extremamente complicado prever um vencedor. Entre 64 jogos e mais de um mês, a imprevisibilidade é maior do que nunca.

     Rússia e Arábia Saudita abrem as hostilidades num grupo também imprevisível, onde o impacto de Mohammed Salah pode ser um fator absolutamente determinante. A Crónica Futebolística segue agora com alguns dos pontos mais dignos de reflexão e análise, tendo em vista o Mundial 2018. Fique atento à página do facebook para mais artigos de natureza semelhante durante os próximos dias.



FATOR CASA

     Não é certamente surpresa se lhe disser que a Rússia acaba por ser uma desilusão em grandes competições. Apenas por uma ocasião superou a fase de grupos, em 2008, quando acabou por chegar às meias-finais do EURO onde foi eliminada pela campeã Espanha. Na verdade, apenas aí a formação de leste terminou uma grande competição com mais de uma vitória, o que acaba por não ser um ponto a favor para o selecionador Stanislav Cherchesov. Uma percentagem vitoriosa de 25% desde que o técnico de 54 anos foi apontado para o cargo em 2016 também não indica uma boa fortuna, mas a verdade é que o palco pode fazer toda a diferença.

É preciso tirar as dúvidas do caminho e afirmar, convictamente, que a Rússia tem um excelente plantel e muito talento no lote escolhido. O grande ponto de interrogação faz-se pela incógnita com que é, muitas vezes, o campeonato russo e pelo quão mais fechado é, comparando com outros campeonatos europeus do mesmo nível. As regras e limite de jogadores estrangeiros em cada plantel acaba por ser uma forte motivação para esticar os bolsos ao maiores talentos do país. Falamos de atletas que, noutras circunstâncias, podiam brilhar noutros campeonatos de renome e serem mais facilmente reconhecidos.

     Ainda com um plantel bastante experiente, alguns teóricos defendem que no papel este é o plantel mais fraco que os russos apresentam nos últimos anos, mas é difícil concordar com essa assumpção quando a mescla da 'velha guarda' e novos talentos está presente em todos os setores. O destaque claro vai para Aleksandr (um dos 4 jogadores com o mesmo nome próprio) Golovin, médio e motor do CSKA Moscovo que deixou excelentes indicações nos jogos frente ao Benfica para a Liga dos Campeões da época passada. Pode ser ele também a chave - tal como a criatividade ofensiva do eterno prodígio Alan Dzagoev - para despoletar o melhor de Fedor Smolov, prolífico goleador do Krasnodar que marcou 63 golos nas últimas 3 temporadas pelo clube.

     Seja como for, o talento russo pode não ser suficiente para superar o fantasma das grandes competições e a pressão de defender o território. Havendo, porém, uma geração e condições favoráveis a que os anfitriões deste Mundial avancem a fase de grupos, as circunstâncias estão do lado da Rússia.

POUCO IMPORTA, POUCO IMPORTA...

     O que pode, afinal, fazer Portugal na Rússia? Com novidades relevantes em comparação à equipa que venceu o EURO na França há 2 anos, Fernando Santos não abdica do seu núcleo duro, mas tem agora uma nova onda de talento ao seu dispor. Num grupo mais traiçoeiro do que parece, toda a atenção é pouca. E a situação teoricamente decadente da Espanha não é, de forma alguma, desculpa para não carregar no acelerador.

     Numa convocatória onde a ausência de Rúben Neves - e que deixa William Carvalho como o único médio defensivo de raiz - acaba por ser o maior ponto de interrogação, é de notar as estreias em grandes de competições de jogadores como Bernardo Silva que estava lesionado em 2016 ou de jogadores como Bruno Fernandes ou Gonçalo Guedes (entre outros) que tiveram fantásticas épocas pelos clubes. Ofensivamente era necessário também colmatar a ausência de Nani (que falha a sua primeira grande competição desde o Mundial 2010) que, apesar de já ter passado os seus melhores anos, continua a ser uma aposta regular e proveitosa para Fernando Santos.

     Já todos sabemos o que pode fazer Cristiano Ronaldo. Depois de um início de temporada atípico, os números do astro madeirense foram, mais uma vez, alienígenas. Nada menos do que 44 golos no mesmo número de partidas, levando o Real a mais uma Liga dos Campeões e índices de motivação no topo à partida para a Rússia. Com 33 anos podemos pensar realisticamente que este pode ser o último Mundial para Ronaldo, que certamente não ambiciona menos do que repetir a façanha da Espanha em 2008/2010 e reforçar o seu estatuto como o melhor português da história, vencendo o Mundial depois de vencer o EURO, há 2 anos, de forma dramática.

     Num grupo que se pode provar mais complicado do que se pode pensar e onde nenhuma vitória é garantida antes do pontapé de saída, vencer o grupo e potencialmente evitar um poderoso Uruguai nos 'oitavos' pode ser uma realidade para o sucesso. De qualquer forma, apesar do sucesso na França, Portugal não se inclui de forma automática no grupo dos favoritos e cabe aos comandados de Fernando Santos provar que a seleção tem estofo para competir com qualquer adversário.

HOLA, ME LLAMO JULEN

      Defende-se que, de todas as seleções no Mundial, a Espanha é a que melhor se conseguiria sustentar sem um treinador, tal é o enraizamento do seu estilo de jogo. E a verdade é que os vizinhos de Portugal já têm um estilo de jogo automático desde o aparecimento do 'tiki-taka' com Aragonés, ainda antes das conquistas do Mundial 2010 e do EURO, 2 anos mais tarde com del Bosque. A questão não é, porém, se a Espanha consegue alinhar em campo sem treinador, mas sim o drama que se construiu em torno da ida de Lopetegui para o Real Madrid (que podia ser facilmente anunciada depois do final da competição ou eliminação espanhola) e o consequentemente despedimento, ele que vai ser substituído no banco por Hierro, que vai ter pela frente um papel ingrato e mais complicado do que seria esperado. Resta perceber se a automatização do estilo de jogo espanhol permanecerá e as coisas vão correr dentro do previsto - como de resto se esperava sobre Lopetegui, que afinou de forma eficiente e pragmática a sua Espanha - ou se o desastre de 2014 está à espera de repetição.

     Depois das últimas duas grandes competições terem sido uma completa desilusão, onde a Espanha apenas fez um encontro fora da fase de grupos, é imperativo dar uma resposta à altura e apaziguar o ambiente de tensão que vai rodeando o futebol espanhol nestes dias. Julen Lopetegui acaba por ser uma perda de peso para La Roja, visto já ter impresso as suas ideias com este particular lote de jogadores. Cabe agora a Fernando Hierro jogar pelo seguro e manter as ideias e pormenores táticos do anterior técnico, fundindo-as com o tal sistema automático que levou a Espanha a um período de glória, ou optar por uma rota de maior ousadia e tentar impingir os seus métodos a curto-prazo, o que será praticamente impossível tendo em conta o timing.

     A goleada à Argentina (6-1) num confronto amigável foi a maior vitória de Lopetegui que protagoniza indiretamente um dos casos mais insólitos à porta de um Mundial. Resta saber como vão os jogadores lidar com a pressão, num lote em que o núcleo do Real Madrid e Barcelona continua mais ou menos intacto, e poderá ser essa a maior esperança dos campeões do Mundo na África do Sul, há 8 anos.

Fique atento nos próximos dias para as próximas partes da análise ao Mundial 2018, assim como cobertura diária dos jogos desta grande competição.

Luís Barreira,
Crónica Futebolística

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     Hoje em dia é quase mandatário falar na Major League Soccer e em salários milionários na mesma frase. A quantidade de jogadores europeus e sul-americanos de renome que rumam ao campeonato norte-americano como jogadores designados não para de aumentar, e com isso surgem salários de invejar qualquer um no mundo do futebol. O que raramente é mencionado, contudo, são as condições com que estes jogadores acabam por proporcionar a si próprios e às suas famílias.

     Não é incomum, de igual modo, considerar a MLS como um “lar de idosos” para algumas das grandes estrelas do futebol de outrem, jogadores com uma idade considerável que já não conseguem render o mesmo que noutros tempos (veja-se o caso de Andrea Pirlo, que apesar de alguns bons momentos com a camisola do New York City FC acabou por perder inclusive o espaço no XI da equipa com Patrick Vieira, tirando brilho naquela que seria a sua última época como profissional). Mas, de qualquer forma, a verdade é que a idade dos jogadores designados – as estrelas das equipas, se quisermos ser mais práticos nesta definição – tem diminuído.

     Dentro de todos os jogadores designados e estrelas do futebol que têm rumado a terras americanos, um dos nomes tem claro destaque e vantagem sobre todos os outros, pelo que tem feito dentro de campo e como tem aproveitado a vida fora dele. Falo, claro, de Sebastian Giovinco, que reinventou a sua carreira de uma forma absolutamente notável.

     Em 86 jogos na fase regular da Major League Soccer (que só define o seu campeão através de playoffs que culminam na MLS Cup) o transalpino conta com umas notáveis 88 contribuições diretas – 55 golos e outras não menos impressionantes 33 assistências. Nas 3 temporadas em que o transalpino vestiu a camisola da formação canadiana o Toronto FC marcou 193 golos na fase regular do campeonato, o que se traduz numa percentagem de 45,5% de golos com cunho da formiga atómica. Em números de golos apenas, Giovinco marcou 28% dos tentos da formação canadiana desde que chegou ao futebol norte-americano.

     A verdade é que Giovinco sempre foi um grande talento. Brilhou no Parma e, embora não encontrasse a regularidade desejada no plantel da Juventus, acabou por ter momentos de grande brilho que lhe valeram os olhos do futebol europeu. E até por ser uma presença consistente no atual campeão italiano, mesmo que saindo do banco, a sua chegada à Major League Soccer acabou por ser um choque. Muitos consideravam – erradamente, como agora se pode ver – que a sua carreira teria acabado nesse momento e que seria apenas mais uma estrela no futebol americano que se iria, como “tantos” outros, encostar-se à sombra da bananeira.

     Mais do que uma estrela dentro dos relvados, a presença mediática do italiano neste campeonato fez com que o BMO Field tivesse casas cheias e com muitos dos adeptos a fazer questão de comprar a sua camisola da formiga atómica, ele que quebrou todos os recordes de vendas de camisola do clube de Toronto. A sua vinda para o clube mudou por completo a perceção dos adeptos canadianos face à equipa, vista por muitos como uma das fundações com piores resultados desportivos da MLS. Claro que as chegadas de talentos como Michael Bradley e Jozy Altidore não pode ser ignorada de forma nenhuma, mas não foram nem tão pouco mais ou menos influentes como o italiano.

     Apesar do Toronto chegar aos playoffs nas 3 épocas em que a formiga atómica constou no plantel, é justo dizer que esta transferência só se tornou num sucesso pleno em 2017, tendo em conta a conquista da MLS Cup por parte da formação canadiana (a 1ª da sua história, depois da amarga final perdida em 2016, no seu próprio estádio). Apesar de brilhar de forma constante pelos seus fantásticos golos de livre, momentos e celebrações efusivas, a conquista do campeonato pelos canadianos transformou Giovinco numa autêntica lenda viva do clube.

     Acaba por não ser ridículo referir que uma das principais motivações da transferência, num ponto de vista pessoal, acabou por ser o lado financeiro. Contabilizando prémios de jogo, o salário do italiano acaba por ultrapassar os 7 milhões de dólares anuais, o que lhe permite estabilidade nesse campo de forma incontestável. Apesar disso, o transalpino acabou por encontrar algo no futebol norte-americano – neste caso na cidade de Toronto – que não conseguia no futebol europeu ou em Turim, onde residia previamente.

     A cultura dos adeptos na Europa e em Itália, onde esta ideia talvez até faça mais sentido, é agressiva. Não com más intenções, mas as abordagens por parte de fãs e simpatizantes, além de constantes, são agressivas e muitas vezes incomodativas. Dentro deste espectro um atleta vê-se privado de muitas coisas ou, pelo menos, não se vê com a mesma privacidade para levar uma vida social pacata como decerto gostaria. O simples facto de poder andar pela cidade ou tomar um café em paz, com a mulher e o filho Jacopo ao lado, sem múltiplas abordagens de fãs que desejam um autógrafo ou as tão famosas selfies, acaba por fazer toda a diferença.

     É extremamente referir a ligação e a influência que uma vida pessoal pacata e pacífica acaba por ter na prestação de um atleta de elite dentro dos relvados. Mente sã, corpo são. Não é o que se costuma dizer?

     O único campo que poderia travar Giovinco numa adaptação plena à cidade de Toronto e à Major League Soccer era mesmo a barreira da linguagem. O inglês não é de todo o forte da formiga atómica, ele que prefere manter-se no italiano, a sua língua mãe. Porém, pelas suas próprias palavras, a língua acaba por não ser um obstáculo tão grande como aquilo que se previa, como o mesmo admitiu numa entrevista à prestigiada Players Tribune: “Acho que não sou muito falador com ninguém, na verdade. Talvez seja por causa da linguagem. Também acho que existem pessoas que falam bastante no balneário, mas depois há jogadores [como Giovinco] que deixam o seu talento nos relvados falar por si. O Del Piero era muito assim.”

     Aquando da sua estreia na MLS em 2015, haviam dois lados. Um dizia que a sua carreira iria sofrer um travão e que seria “apenas” mais uma estrela na MLS, a usufruir de um salário milionário, sem um rendimento desportivo que o justificasse. O outro lado expectava que, como se diz na gíria, Giovinco fosse partir tudo no campeonato norte-americano. Hoje é mais do que legítimo dizer que esse último lado era o correto, já que os números absolutamente incríveis e a conquista da MLS Cup em dezembro de 2017 fazem de Giovinco não só a estrela indiscutível da equipa, mas como o jogador mais valioso da história do clube. Além da conquista da MLS, o Toronto FC foi a equipa com mais pontos nos 34 jogos que compõem a fase regular do campeonato.

     Existiu mais nesta transferência do que apenas um salário exorbitante. A vida pacata e confortável que Giovinco tem em Toronto, junto da sua família, é meio caminho andado para um maior conforto dentro dos relvados, que se verifica em todos os jogos pela formação canadiana. Quando se reúnem condições dentro e fora dos relvados, o desfecho é este.

      Sebastian Giovinco é, com toda a justiça, o principal ponto de interesse individual da Major League Soccer. E, para além disso, um dos jogadores mais entusiasmantes de assistir semanalmente em todo o futebol mundial…

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Em parceria com a Visa e com a Copa90, a maior entidade futebolística independente em termos de comunicação, a Crónica Futebolística partilha a melhor experiência da Taça das Confederações Visa #RussianYou.

O vídeo que pode ver acima mostra algumas das aventuras de quatro adeptos russos que se comprometeram a apoiar Portugal, México, Chile e Alemanha na Taça das Confederações, com a missão de mostrar o ambiente vivido na competição aos adeptos que não conseguiram marcar presença na mesma.

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     Não é incomum, hoje em dia, caracterizar muitos clubes, nacionais ou internacionais, como apenas mais um. Um conjunto de jogadores com um treinador, equipa técnica e os seus adeptos, sem que muito se saiba sobre as próprias ideias do clube ou sobre a relação que os seus jogadores têm, dentro ou fora de campo. Numa altura em que redes sociais acabam por ter uma grande influência na promoção dos clubes, dos seus atletas e das suas próprias ideias institucionais, existem equipas que acabam por beneficiar mais desse facto do que outras. O cenário ideal acaba por ser quando um clube faz questão de mostrar o companheirismo e espírito de grupo dos atletas dentro de campo, sendo que os mesmos encarregam-se de o fazer fora do campo. Eis, portanto, o Rio Ave Futebol Clube.

     Cada vez mais respeitável dentro e fora de campo, como instituição, o Rio Ave tem caminhado a passos largos para ser uma das grandes potências do futebol nacional, atrás dos 3 grandes que muitas vezes acabam por ter o seu estatuto no pódio, com maior ou menor dificuldade, garantido. Naquela que foi a época mais interessante da sua carreira em Portugal, Nuno Espírito Santo carimbou o acesso da formação de Vila Conde às eliminatórias de acesso à Liga Europa, que com Pedro Martins ia mesmo chegar à fase de grupos. Se até esse momento o Rio Ave prometia muito, esse momento - o histórico golo de Esmael Gonçalves frente ao Elfsborg - elevou o clube para um patamar ainda maior. A verdade é que mesmo a escolha do novo treinador, Pedro Martins, acabou por ser extremamente coerente, fiel às ideias do clube e dos próprios jogadores, a dum futebol sólido, de propensão ofensiva, sem medo de expressão individual. 

Sabemos todos que, a meio duma temporada, é sempre difícil solicitar os serviços de um treinador após a rescisão de outro. Isto é, de um treinador que vá de acordo às ideias do clube. E foi o que aconteceu aquando da saída de Nuno Capucho do clube rio-avista: em pleno mês de novembro, com a época a decorrer, a turma de Vila do Conde 'caprichou' na sua escolha e contratou Luís Castro, veterano técnico português que acabou por deixar um legado difícil de superar no Porto B. Com 55 anos, Luís Castro não se mostrou - e nunca o foi - o típico treinador de "velha guarda", com um discurso monótono e repetitivo. O técnico de Vila Real acabou por ser uma agradável surpresa para quem não acompanhasse com tanta atenção o seu trabalho na Segunda Liga, apresentando um discurso fresco para os verdadeiros amantes do futebol, sem medo de refletir sobre o seu modelo de jogo, ideias ou prestação da sua equipa de forma mais detalhada. Que bonito foi assistir às conferências de imprensa e flash do treinador durante 6 meses.

     Algo que indubitavelmente acaba por ajudar a estas fortes ideias e a esta evolução que o clube tem tido no futebol português nos últimos anos deve-se à forte união entre os próprios jogadores e com as pessoas que os rodeiam dentro do clube. Dentro do Rio Ave está patente a ideia de que todos têm o seu papel e que toda a gente tem o seu grau de responsabilidade, igualmente importante, no sucesso do clube. Num clube onde cada jogador vai para o seu canto, finalizados os treinos e os jogos, claro que o grau de companheirismo e amizade não será o mesmo. Duma maneira ou de outra, isso terá a sua influência dentro de campo. É muito mais fácil jogar ao lado de alguém em que se confia e de quem se tem um conhecimento amplo. Porque, não se enganem, no futebol não são só os pés que interessam. E a união no balneário do Rio Ave não é recente, ganhando maior destaque mediático desde os tempos em que Ukra, além de grande líder dentro de campo, colocava todo o balneário a rir compulsivamente com as suas características brincadeiras. E isso é tudo importante, como está presente nas próprias redes sociais dos jogadores: os jantares, as viagens, os dias de folga e as churrascadas. Tudo isso contribui para o bem-estar dentro do balneário, que tem uma óbvia influência para aquilo que se passará dentro do relvado. No balneário do Rio Ave, mais do que colegas ou amigos, está um grupo de irmãos.

     Claro que todo o convívio e mais algum é fantástico, mas como em tudo na vida existem alturas para brincar e outras para encarar as coisas de forma frontal e séria. É para isso que todos os clubes têm um capitão, aquele que tenta liderar a equipa emocionalmente dentro de campo. E a verdade é que o Rio Ave dispõe do capitão mais instruído de todo o campeonato, um verdadeiro senhor jogador que conta com interessantíssimos projetos fora de campo. Claro, não podia ser outro que não Tarantini. Prestes a cumprir uma década no Rio Ave, Ricardo Monteiro, nome pelo qual poucos o reconheceriam, é um indiscutível na formação de Vila do Conde não só pela qualidade que oferece com os pés ou a inteligência que dispõe dentro de campo, mas também pela sua autoridade e capacidade de liderança, ele que reúne as capacidades de um verdadeiro capitão.

     Tarantini obteve o grau de mestre pela Universidade da Beira Interior em 2014, acabando o curso com 18 valores, defendendo a sua tese em Ciências do Desporto. Já com perto de 35 mil minutos jogados na sua carreira profissional, o médio de 33 anos tem o seu próprio site e projeto, onde se mostra defensor da possibilidade de conciliar a formação académica e o futebol profissional, algo que na sua opinião falta às mais recentes gerações que abandonam os estudos prematuramente em busca duma carreira de sonho que pode ou não acontecer. E se a própria sinopse da causa não lhe chama a atenção, Tarantini expõe dados impressionantes na página da sua causa, onde cita estudos que referem que a grande parte dos jogadores profissionais passam por sérias dificuldades num máximo de 5 anos após a sua retirada, o que acaba por ter consequências a nível pessoal. Tarantini reforça de forma séria a ideia de que, além de ser possível conciliar os estudos com o futebol, acaba por ser algo necessário porque o futebol - como jogador, claro - acaba por uma profissão a tempo inteiro, no máximo, até aos 35-40 anos. E a partir daí, o que fazer? Essa é a causa de Tarantini, que defende que tem de haver um planeamento coerente, a longo prazo, para a vida depois do futebol.

     A verdade é que grande parte desta união visível no grupo de trabalho do Rio Ave só é possível através da grande capitalização das redes sociais do clube, muito por culpa do seu diretor de comunicação, Marco Carvalho, que nos dá uma perspetiva - quase em tempo real, por vezes - do que se vai passando no clube de Vila do Conde, desde treinos a iniciativas relacionadas com a comunidade envolvente. É necessário, hoje mais do que nunca, que as redes sociais dos clubes acabem por atualizar de forma decente os próprios adeptos e seguidores do clube, mostrando também o lado mais humano dos atletas - porque eles também o são -, algo que muitas vezes a imprensa acaba por ignorar ou não dar, de todo, a importância devida. Nos dias de hoje, com as tecnologias existentes, é um pecado não conseguir ou não querer estabelecer uma relação, muitas vezes direta, entre jogadores e adeptos. E bem que o futebol necessita disso.

     Longe de ser apenas mais um clube, o Rio Ave tem aberto muitos olhos no futebol português durante as últimas temporadas, conciliando uma grande qualidade futebolística com um grupo de jogadores extremamente unido, criando uma harmonia perfeita e condições favoráveis para que a instituição acabe por ser bem sucedida nas várias frentes em que compete. Resta esperar que o próximo treinador dos verdes e brancos dê continuidade ao trabalho dos seus antecessores, que motivação neste balneário de irmãos, certamente, não faltará. O Rio Ave continuará a trabalhar de acordo com aquela que é uma das suas maiores virtudes: a sua identidade.

LUÍS BARREIRA, CRÓNICA FUTEBOLÍSTICA
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