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     Porquê a insistência do futebol português e de larga maioria dos seus seguidores - em todos os meios de comunicação que o envolvem, desde a imprensa física e digital à mais banal e casual conversa de tasca - em mediatizar quem mais fala e, muitas vezes, menos faz? Tal é esta obsessão com o protagonismo fácil que, infelizmente, se regista um claro défice de páginas de jornais e discussões de café sobre aqueles que verdadeiramente merecem ser referenciados por bons motivos. Por outras palavras, e de forma muito mais direta: 

➤ Porquê a clara e incompreensível falta de destaque dada a Jorge Simão até à sua oficialização como novo treinador do Sporting Clube de Braga?

     O agora técnico do Sporting de Braga não procura protagonismo fácil por ter uma personalidade extravagante ou por declarações polémicas. Antes pelo contrário, o antigo técnico do Grupo Desportivo de Chaves limita-se a fazer - e muito bem, é preciso referir - o seu trabalho. Infelizmente, em Portugal, isso parece não ser o suficiente para despertar o interesse sobre uma determinada figura. Não que seja propriamente uma surpresa, num país onde se debatem as mesmas atrocidades há anos sem fim. De facto, falam-se de mais dos assuntos que se devem enterrar e, devido a essa mesma monopolização de tópicos, quem verdadeiramente merece não tem sequer, por vezes, uma menção honrosa

     Antes de mais, afirmar que esta é uma generalização e, felizmente, não corresponde a um todo. Existem meios de comunicação que de forma justa e contrária aos assuntos mais mediáticos do momento continuam a promover o bom futebol e os protagonistas que merecem realmente as palavras de apreço. O problema é que, muitas vezes, essa minoria padece perante os temas habituais e há muito monótonos que cobrem a atualidade do nosso futebol. Portanto coloca-se a questão: basta ser competente para ser reconhecido no futebol português?
  ➔ Em 2014/2015 venceu 14 jogos em 23 partidas no Campeonato Nacional de Séniores pelo Mafra e deixou a formação verde e amarela em zona de playoff na fase de subida, onde António Pereira iria depois vencer essa mesma zona de subida e catapultar a equipa do distrito de Lisboa para a Segunda Liga;

  ➔ Na mesma temporada iria assumir o comando técnico do Belenenses depois do afastamento de Lito Vidigal (visto ter sido adjunto dos azuis do Restelo nas duas épocas anteriores), carimbando o acesso da formação lisboeta à 3ª pré-eliminatória da Liga Europa. De referir que em 9 jornadas, e tendo assumido o comando técnico em meados de março, uma altura extremamente complicada na época, 3 vitórias, 3 empates e 3 derrotas foram suficientes para o histórico emblema de Lisboa carimbar o acesso ao futebol europeu. Quando foi anunciado como técnico do Belenenses a equipa não se encontrava nesta mesma zona europeia. O projeto do 'Belém' iria seguir com Ricardo Sá Pinto ao leme, onde o Restelo acabou por receber equipas como a Fiorentina na fase de grupos da Liga Europa. O futuro de Jorge Simão iria, apesar da grande prestação que antecedeu a campanha europeia do Belenenses, passar pelo Paços de Ferreira, onde o jovem técnico português se mostrou igualmente num grande nível. E pese embora o Belenenses tenha disputado cerca de 3/4 dos jogos do campeonato com Lito Vidigal ao leme - numa temporada marcada pelos problemas com a direção - Jorge Simão não foi recompensado com suficiente mérito, depois da belíssima reta final do campeonato que executuou, vindo do CNS, sem qualquer experiência como treinador principal na primeira divisão. 

     Durante esta fantástica época que o viu não só ser a peça chave para a subida de divisão do Mafra, mas também um dos pilares para o acesso europeu do Belenenses, Jorge Simão não levantou ondas: limitando-se a fazer o seu trabalho e com um travo de excelência, tal foi o seu registo em 2014/2015, uma cobertura muito limitada às suas conquistas foi o melhor que conseguiu, apesar do seu claro sucesso - quer no 3º, quer no 1º escalão do futebol português. E porque não foi o técnico destacado com maior regularidade pela imprensa e pelos ávidos seguidores do nosso futebol? Por manter uma postura serena e competente? Por não associar a sua pessoa a declarações polémicas e que pudessem ter prejudicado o rendimento do seu grupo de trabalho? Ou, talvez, por se concentrar exclusivamente em trabalhar em prol da sua equipa dentro e fora de campo, mantendo uma postura exemplar dentro das 4 linhas e na sala de imprensa? É de lamentar que figuras como esta sejam relegadas para planos secundários numa realidade jornalística - de realçar, novamente, que esta é uma generalização - em detrimento de figuras que, por fazerem mais ruído ou por terem um discurso que gera maior tráfego mediático, fazem manchetes numa base diária.

     A verdade é que com mais ou menos mediatismo o agora treinador do SC Braga deu continuidade ao seu excelente trabalho no principal escalão do futebol português com uma campanha categórica no Paços de Ferreira, onde terminou no 7º lugar e foi um substituto à altura de Paulo Fonseca. De resto, é necessário salientar que cumpriu o seu objetivo primordial nos castores e, não só superou o registo do seu antecessor, como acabou o campeonato com os auri-verdes a 1 ponto da zona europeia que, se bem se recorda, acabou por ficar em nome do Arouca de Lito Vidigal.

E porque é que Jorge Simão cumpriu o objetivo traçado na capital do móvel?

     Para explicar de forma clara é necessário analisar o discurso de uma parte considerável dos treinadores nos campeonatos profissionais de Portugal: o "jogo a jogo", "um jogo de cada vez" e "o próximo jogo é o mais importante da época". Embora sejam pontos de vista aceitáveis, muitas vezes com um fundamento admirável, é de salientar o afastamento de Jorge Simão dessa filosofia carpe diem, sendo ele um técnico que privilegia a big picture ou, em termos mais claros, a classificação final. É notório o seu interesse pela maratona e não pelo sprint. Para isso, o técnico de 40 anos mostra a sua ambição ao definir metas pontuais, tendo sido esse um dos principais pontos de destaque na sua primeira intervenção oficial como técnico do Sporting de Braga. E tudo começou na formação pacense quando definiu um objetivo muito simples para a sua equipa, objetivo esse que acabaria por cumprir: fazer 48 pontos, superando os 47 de Paulo Fonseca na época passada. Isto, de forma sintetizada, porque procurava fazer uma época melhor que a anterior, nem que a diferença fosse a de um simples ponto. E não interessava ter 10, 20 ou 30 no fim da primeira volta. O importante era, feitas as contas das 34 jornadas, o Paços de Ferreira somar 48 pontos. Uma derrota inesperada em terreno caseiro frente ao Tondela impediu a Europa de se tornar uma realidade para a formação de Jorge Simão na penúltima jornada, mas a meta pontual seria atingida na 32ª jornada.

     Bruno Moreira, com 14 golos, acabaria por ser o melhor marcador dos castores e um dos principais pilares para a concretização de uma meta que não foi delineada a meio do campeonato ou no último terço. Jorge Simão e o seu grupo de trabalho cumpriram um objetivo que foi delineado desde o início do campeonato - já o dizia em agosto de 2015 - de forma cuidada, sem qualquer euforia sobre uma eventual qualificação europeia ou determinado posto na classificação. Sem levantar ondas, os pacenses melhoraram o registo de Paulo Fonseca em 2014/2015 com uma grande qualidade exibicional ao longo da Liga NOS. Uma pena, reitero, que não tenho sido atribuído o destaque merecido a uma época que, planeada meticulosamente, viu uma equipa comprometer-se a um objetivo durante toda uma temporada e, eventualmente, cumpri-lo com consistência e, em ocasiões, momentos de excelência.

➤ Traçar metas realistas, mas ambiciosas

     O Paços de Ferreira não foi o único clube onde Jorge Simão chegou e imediatamente traçou metas pontuais na qual se iria focar durante toda a temporada, encarando dessa forma o campeonato como um todo, uma maratona e nunca como uma corrida de 100 metros ou uma simples questão de "jogo a jogo", sem qualquer perspetiva para o futuro a médio-longo prazo. Com esta última filosofia, completamente oposta à de Jorge Simão, não existem quaisquer objetivos. Qual é a motivação que terá um atleta em entrar em campo num grupo de trabalho onde não há expectativas ou o delineamento de um alvo a ser atingido no fim da temporada? O atual treinador do Sporting de Braga ganha pontos neste campo por chegar aos clubes e delinear metas efetivas junto dos jogadores, fazendo com que o seu grupo de trabalho tenha uma razão para treinar no duro e, no fim-de-semana, dar um pique de aceleração extra no último lance do jogo para garantir os 3 pontos

     Depois de consumado o regresso dos valentes transmontanos à elite do futebol português, Jorge Simão foi o eleito para suceder a Vítor Oliveira no comando técnico dos flavienses e, tal como fez no seu clube anterior, traçou uma meta junto do grupo de trabalho. Desta feita não eram 48, mas sim 40 - registo pontual que, em 15/16, permitiu ao Vitória Sport Clube terminar na metade da tabela. E, de facto, Jorge Simão procurava estabilizar uma formação acabada de voltar à primeira divisão. O objetivo, caso cumprido na totalidade, era suficiente para fazer uma prova sem preocupações face à zona de despromoção. Embora difícil, o técnico considerou o objetivo possível. E, caso o treinador de 40 anos permanecesse no Desportivo, certamente iria cumprir os objetivos pontuais pela 2ª época consecutiva. Em 13 partidas realizadas pelos transmontanos realizou uns impressionantes 19 pontos, deixando a equipa agora orientada por Ricardo Soares num notável 7º lugar. Tendo recebido e vencido o Moreirense no seu último jogo como treinador do Chaves para o campeonato, a sua prestação fantástica no clube recém promovido na Liga NOS terminou com apenas 2 derrotas em 13 jogos. E certamente um relativo sentimento agridoce, devido à aparente facilidade com que os flavienses iriam cumprir um objetivo, na teoria, de grau de dificuldade elevadíssimo. Só uma hecatombe na 2ª metade do campeonato iria impedir a equipa de alcançar a marca redonda dos 40 pontos.

    E se ainda haviam dúvidas sobre a real qualidade de Jorge Simão nos vários campos que compõem um treinador de qualidade - porque treinar não é só orientar os treinos e/ou dar instruções durante os jogos -, o técnico natural de Pampilhosa da Serra mostrou mais uma vez a sua habilidade, desta feita em Trás os Montes. E se a formação presidida por Bruno Carvalho regressou ao topo do futebol português com um bom plantel, esse mesmo grupo de trabalho foi potencializado de uma forma extremamente entusiasmante por Jorge Simão que conciliou algo que poucos treinadores - mesmo incluindo os grandes do futebol português - conseguem fazer na Primeira Liga: ganhar e jogar bem. E a chave passou pelo equilíbrio da equipa já que não tendo uma estrutura atacante propriamente prolífera (13 golos marcados nos 13 jogos de Jorge Simão), os transmontanos vão-se apresentando como uma das formações mais sólidas, defensivamente falando, do campeonato. Antes do jogo no Dragão, onde já não se encontrava Jorge Simão no banco, o Chaves tinha sofrido apenas 11 golos em 13 partidas. Só Benfica, Porto e Braga têm menos golos sofridos que os flavienses, numa temporada que acaba por ganhar outro brilho face à eliminação dos dragões na Taça de Portugal que foi um dos raros momentos nesta temporada onde o Chaves e Jorge Simão foram realmente recompensados com o devido destaque. Dentro dos possíveis, claro está.

➤ Lufada de ar fresco no futebol português

     Face ao despedimento de José Peseiro, o presidente do Sporting de Braga teve que agir rapidamente para arranjar um substituto para o clube minhoto e é de realçar a sua excelente decisão. Se considerarmos que o Vitória SC está no lugar onde merece estar no campeonato português, a lutar por um lugar europeu, e que a época passada foi um caso isolado, o Chaves é definitivamente a principal surpresa do futebol português na presente temporada e António Salvador deve a capacidade de reconhecer em Jorge Simão o talento necessário para liderar um plantel muito mais capaz do que aquilo que produziu até esta fase da temporada, apesar de no momento em que este é lançado estar a ocupar o pódio do campeonato. E se é verdade que o Gverreiros do Minho têm sido casa para alguns dos treinadores portugueses mais sucedidos da atualidade nos últimos anos, só quem não conhece o trabalho de Jorge Simão pode acreditar que, dentro de um menor ou maior período de tempo, também será ele um dos técnicos portugueses mais bem sucedidos.

     O discurso realista, honesto, genuíno e convicto de Jorge Simão é uma verdadeira lufada de ar fresco no futebol português. Como em tudo na vida é necessária, dentro de uma estrutura, a existência de um líder com uma convicção que faça com que (neste caso os adeptos, plantel, equipa técnica e direção) as suas palavras sejam encaradas com seriedade e veracidade. A primeira intervenção do técnico do Sporting Clube de Braga é, fora dos relvados, um dos momentos altos da época desportiva em Portugal até ao momento. E, para variar a tendência no nosso futebol, pelos melhores motivos.

     "Sou muito convicto, realmente, naquilo que posso fazer e acho que isso é uma das coisas que me fez ter este trajeto e estar aqui."

     Como fez em Paços de Ferreira e em Chaves, Jorge Simão não deixou de traçar um objetivo pontual para o Sporting Clube de Braga. Desta feita são uns ambiciosos 65 pontos, mais 7 do que fez Paulo Fonseca pelos bracarenses na época passada (e, curiosamente, esta é a segunda ocasião onde Simão treina uma equipa que na temporada anterior esteve ao cargo de Paulo Fonseca). Classificando o técnico como o ponto fundamental na sua intervenção, esse traçar de um objetivo com os jogadores, os protagonistas dentro de campo, acaba por se tornar numa das imagens de marca de Jorge Simão durante a sua carreira no campeonato português, algo que mostra uma seriedade quase única no nosso futebol pela forma como anuncia o próprio objetivo. É igualmente uma lufada de ar fresco no futebol português observar um treinador a não desperdiçar as suas palavras com falsas modéstias e a afastar totalmente o mérito da sua figura. Jorge Simão reconhece o seu talento e capacidades enquanto líder e também passa muito por aí a sua confiança em traçar metas para o final da época. Mostra que, de uma maneira ou de outra, está confiante no seu grupo de trabalho e no trabalho que é realmente capaz de fazer, podendo ultimamente concretizar esses objetivos. Um técnico que não seja confiante e esteja convicto daquilo que pode realmente realizar com um determinado grupo de jogadores naturalmente não poderá traçar metas porque, talvez, nem ele acredita que elas sejam possíveis de alcançar.

     Tendo encarado a sua primeira intervenção como técnico do Sporting de Braga e as posteriores questões dos jornalistas com uma enorme frontalidade e genuinidade, um palco maior parece enquadrar-se perfeitamente como o habitat de Jorge Simão que pode ter finalmente condições perfeitas - não que não o tivesse nos outros clubes, mas com um palco maior vêm outros recursos para trabalhar - para se tornar a revelação do futebol português em termos técnicos, englobando não só para essa distinção os seus resultados desportivos (que nunca deixou de cumprir em Belém, Paços de Ferreira ou Chaves) mas como a sua postura única no futebol português, que faz dele um exemplo em como se expressar no futebol e uma figura a reter para as próximas épocas por essas mesmas razões. Será 2017 o ano em que a comunicação social desportiva nacional irá finalmente acordar e perceber a verdadeira pérola que tem em Jorge Simão?

"Não tenho a coragem de estar no terceiro lugar e dizer que vou lutar pelo quarto."
- Jorge Simão, 20 de dezembro de 2016


Luís Barreira,
Crónica Futebolística





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     Se for adepto do Championship, um dos campeonatos mais competitivos do futebol mundial, é bem provável que se depare, pelo menos, com um jogador escandinavo em cada partida que assistir. Na verdade, das 24 equipas que constituem o segundo escalão do futebol inglês, 17 formações têm um jogador nórdico no seu plantel, seja ele preponderante para a equipa, uma jovem promessa ou um jogador utilizado primordialmente na equipa de reservas, seja para recuperar de lesão ou ambientar-se ao futebol britânico. Independentemente da sua utilização dentro da equipa que represente, e somando o total das 24 equipas presentes no EFL Championship, regista-se um bizarro número de 32 nórdicos, com uma média de 1,33 por equipa. Na Premier League o número total fica nos 13. Porquê a tamanha afluência de jogadores finlandeses, dinamarqueses, noruegueses, suecos e islandeses no segundo escalão do futebol inglês? 

A Crónica Futebolística, nesta peça de Luís Barreira, irá expor alguns fatores que ajudam a compreender e assimilar os factos acima escritos de forma clara.

**A ter em conta que neste artigo é utilizado o termo mais amplo de "Escandinávia", incluindo a Finlândia, Islândia e, embora não tenha qualquer representante, as Ilhas Faroé.

     Embora os estereótipos que por tanto tempo circundaram o típico jogador nórdico estejam a dissipar-se de forma lenta, mas gradual, existe uma ideia base daquele que é o jogador escandinavo: louro, alto, fisicamente imponente e tecnicamente débil. E o rótulo mais fácil de desmentir, destes 4 mencionados, é sem dúvida o último. Mas, claro há exceções. Nem todos são louros, também. É preciso ter, em primeiro lugar e antes de tudo, uma ideia base de como funcionam os campeonatos escandinavos e onde se situam em termos de qualidade e mediatismo.

     Como é provavelmente do conhecimento geral, os campeonatos nórdicos não estão em par com as competições de 1ª e 2ª linha do futebol europeu (entenda-se por 1ª linha o campeonato espanhol, inglês, alemão, italiano e apesar dos fracos rendimentos europeus a própria liga francesa, com a 2ª linha encabeçada pelos campeonatos de Portugal, Holanda ou Rússia). Claro, necessário referir que não o estão porque, além de não terem qualidade para competir com a elite do futebol europeu, não têm os recursos financeiros nem o prestígio internacional para tal. Porém, como é apanágio da cultura escandinava, os recursos existentes são aproveitados das formas mais rentáveis, quer para consumo interno quer na promoção do atleta da casa, como mostra a migração de jogadores para o Championship.

     Embora não tenham níveis de futebol ou assistências como os tubarões da Europa, é necessário salientar que os campeonatos nórdicos (nomeadamente Dinamarca e Suécia, em maior nível) são erradamente vulgarizados e muitas vezes inferiorizados em relação à sua real qualidade, certamente respeitável. Essa subvalorização das ligas, das suas equipas e atletas constitui um dos pontos mais importantes desta peça que será explorado mais à frente. A exploração - ou falta dela, neste caso - por parte de (ainda mais) poderosos mercados europeus faz com que as equipas do Championship tenham via verde para explorar não só o talento que cresce nos próprios países nórdicos, mas também adquirir as suas maiores promessas espalhadas pelo futebol europeu. Juntando a já referida subvalorização das competições à falta de exploração e atenção de grande parte da Europa do futebol face ao produto escandinavo, juntam-se todas as condições e mais algumas para parte do talento incorporado rumar, justamente, a Inglaterra.

     ➦ BAIXOS VALORES DE MERCADO

          Tão simples quanto a lei da oferta e da procura. Se há pouca oferta e muita procura, os preços são naturalmente inflacionados. Se a situação se inverte e a oferta é maior do que a procura, naturalmente o valor de mercado irá cair, favorecendo eventualmente o comprador. Esta, juntando à subvalorização dos campeonatos escandinavos e ao impressionante poderio financeiro da maior parte das equipas do Championship, é uma das melhores formas de ilustrar a posição do mercado escandinavo face, neste caso em particular, ao 2º escalão do futebol inglês. Com esta tendência a dissipar-se cada vez mais e o futebolista nórdico a ser cada vez mais valorizado, ainda existe uma lacuna considerável entre a oferta. Clubes como o Midtjylland, Brondby ou mesmo o Copenhaga - utilizado o caso da Superliga dinamarquesa - têm de, ocasionalmente, vender os seus maiores e mais valiosos talentos para se conseguirem sustentar financeiramente de forma mais tranquila. Muitas vezes com uma observação deficitária tendo em conta o talento existente no país em questão, o destino destes mesmos jogadores cada vez mais parece passar por Inglaterra e, face à falta de competitividade no mercado, a preços relativamente acessíveis. E porquê Inglaterra? O que nos leva ao segundo ponto.

     Embora o seu destino não passe por Inglaterra, a transferência de Thomas Delaney do Copenhaga para o Werder Bremen ilustra muito bem este ponto. Com 25 anos, o atual capitão, motor do meio-campo e fonte de carisma dos dinamarqueses - e cada vez da seleção, onde é presença incontestável - irá rumar ao futebol alemão pela mera quantia de 2 milhões de euros. E valor classificado por "mera quantia" devido ao seu talento e versatilidade notáveis, sendo que num campeonato ou equipa de maior prestígio o valor acima não constituiria, muito provavelmente, nem metade do montante da sua transferência.

     ➦ SEMELHANÇAS NO ESTILO DE JOGO

     Como já foi referido acima, o típico futebolista nórdico continua a evoluir em termos técnicos, com o caso mais evidente a surgir com a Islândia no EURO 2016. Apesar de ser uma equipa que recaia bastante no jogo aéreo e nos aspetos físicos do jogo, a formação de Lars Lägerback demonstrou uma impressionante fasquia técnica quando necessitou. O mesmo vai acontecendo um pouco por todos os países da Escandinávia, com jogadores - especialmente médios de características ofensivas - tecnicamente dotados. Apesar disso, os seus princípios mais primitivos continuam lá: a estatura, a presença física e a facilidade por vezes estonteante no jogo aéreo. E a verdade é que, de todos os campeonatos a nível mundial, existem poucos que requerem tamanha fisicalidade - seja no chão ou no ar - como o Championship.

     É elementar concluir, então, que se torne natural que um jogador escandinavo que reúna estas características se sinta na sua zona de conforto: o jogo aéreo, a presença física e a resistência são dos aspetos mais importantes para qualquer jogador do Championship e com um mercado amplo como o nórdico estranho seria as formações inglesas não tirarem proveito de jogadores que, com um valor de mercado relativamente acessível para o seu orçamento, cumpram com nota alta os pré-requisitos para atuar numa competição tão desgastante e exigente. Entre os mais de 30 jogadores escandinavos presentes neste campeonato, existem os que possuem uma qualidade técnica acima da média e, quando juntam essa mesma perícia ao seu porte físico, acabam por se tornar em verdadeiras referências. Veja-se, por exemplo, Stefan Johansen, médio norueguês do Fulham.

     ➦  ÖDEGAARD E A BUSCA PELO PRÓXIMO MENINO DE OURO

     Com o enorme Jussi Jääskelainen a representar o Wigan aos 41 anos, existem 5 jogadores com idades compreendidas entre os 17 e 21 anos a representar formações no Championship, seja pela equipa principal ou pela formação de reservas. Com o aparecimento e explosão de Martin Ödegaard em termos mediáticos antes e durante a sua chegada ao Real Madrid, o mercado nórdico sofreu um dos piques na sua popularidade no que aos últimos anos diz respeito, com os departamentos de observação de dezenas de clubes europeus a procurar a próxima pérola norueguesa ou, mais amplamente, escandinava. O caso mais evidente é o de Martin Samuelsen: tendo iniciado o seu percurso no futebol inglês em 2012, com 15 anos, o jovem de 19 pertence atualmente aos quadros do West Ham (pelo qual já jogou na Liga Europa) e está emprestado ao Blackburn Rovers, onde ainda procura um lugar no onze. Internacional norueguês desde o passado mês de março, Samuelsen teve inúmeros holofotes sobre si depois do aparecimento do seu compatriota no mundo do futebol, mas ainda não conseguiu capitalizar.

     A relevância dada a Ödegaard abriu portas a que, num raro período, toda a Europa do futebol se virasse à Escandinávia em busca do próximo menino de ouro. E para o Championship não foi diferente, sendo o jogador do Real Madrid um dos principais impulsionadores para que, ainda que talvez por um período demasiado breve, se observasse com maior atenção o mercado nórdico.

     ➦  RASMUS ANKERSEN, "THE GOLD MINE EFFECT"

     Autor de vários livros e considerado expert em alta performance no que ao futebol diz respeito, o dinamarquês Rasmus Ankersen é, aos 33 anos, presidente do Midtjylland e um dos diretores do futebol do Brentford FC. Apontando a este último cargo no verão de 2015, o antigo capitão dos sub-19 da equipa que agora preside (uma lesão terminou a sua carreira prematuramente) foi a principal influência para as contratações dos dinamarqueses Lasse Vibe e Andreas Bjelland por parte do Brentford no mesmo verão do ano passado. Embora este último vá vendo o seu tempo em Inglaterra marcado por problemas físicos, Lasse Vibe deu continuidade ao seu grande momento de forma pelo Gotemburgo, impressionando de forma gradual pelos ingleses. Apesar do sucesso como extremo, várias lesões no ataque fizeram com que tivesse de assumir o lugar de ponta-de-lança, onde sofreu muito pelo seu isolamento no terreno durante parte considerável da temporada. Ainda assim, sem lesões, Vibe carimbou exibições de enorme classe e terminou a temporada com 14 golos no Championship.

     Aparecendo tarde na ribalta (atualmente com 29 anos), a contratação e consequente prestação de Vibe no futebol inglês despertou muitos olhos de responsáveis do Championship ao mercado nórdico, quebrando de certo modo o estigma de que os avançados - neste caso dinamarqueses - nórdicos se baseiam na sua estatura, força e jogo aéreo para singrar no mundo do futebol. Extremamente ágil, rápido e brilhante com a bola nos pés, a contratação escolhida a dedo por Rasmus Ankersen ganhou muitos adeptos no Championship e consciencializou responsáveis do campeonato a apostar no mercado nórdico. O diretor técnico do Brentford é hoje considerado como uma das mentes mais promissoras do futebol por tudo aquilo que já alcançou aos 33 anos e pela sua perspetiva única sobre o desporto, como bem indicam as suas obras.

     ➦  TRADIÇÃO E HISTÓRIA NA PREMIER LEAGUE

     Com nomes como Christian Eriksen, Kasper Schmeichel, Gylfi Sigurdsson ou Jonas Olsson a cimentarem o seu estatuto na Premier League, cada um de forma diferente, as prestações destes e de antigos jogadores escandinavos na Premier League transmite uma determinada confiança e viabilidade às eventuais contratações por parte de equipas do Championship, quando visando o mercado nórdico. Embora o sucesso de uns não signifique o sucesso automático de outros (e nem todos os jogadores nórdicos no Championship vivem dias fáceis), a história destes jogadores na Premier League é certamente um ponto positivo.

     Figuras como Peter Schmeichel, Tore André Flo, Morten Pedersen, Fredrik Ljunberg, Olof Mellberg, Daniel Agger ou Thomas Sorensen marcaram gerações nos seus respetivos clubes (uns mais do que os outros, claro) e o sucesso destes e outros jogadores na Premier League é não só um ponto positivo, mas como também um ponto de referência às formações do Championship que procuram uma referência a médio-longo prazo. E não haverá melhor exemplo de que Aron Gunnarsson: o capitão islandês representa o Cardiff com unhas e dentes desde 2011, sendo ele um dos mais contagiantes e carismáticos líderes do Championship dentro de campo.

     ➦  FRIO, PRÁTICO E EFICAZ

     Juntando um pouco de tudo o que já se disse na peça, as contratações de jogadores nórdicos por parte de equipas do EFL Championship revelam-se extremamente práticas e eficazes na maior parte das ocasiões, com as equipas a não ter que abrir tanto os cordões à bolsa em comparação com um eventual investimento noutros mercados, mais explorados e reconhecidos a nível mundial. Juntando-se o útil ao agradável, estas contratações acabam por ser viáveis porque à partida, os clubes sabem o que estão a comprar: um jogador que, dadas as suas características, se adequa de forma ideal ao campeonato onde irá atuar. 

     A frieza, durabilidade e físico do jogador nórdico acaba por ser na maior parte das ocasiões o critério formado para contratar determinado atleta - com jogadores como Lasse Vibe a serem exceções. Num lote em que a figura mais facilmente reconhecível acaba por ser Nicklas Bendtner (que, tal como o próprio Nottingham, está a crescer), o Championship tem um elenco de luxo no que à Escandinávia diz respeito. E uma coisa é certa: estão no sítio certo. 

Luís Barreira,
Crónica Futebolística

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     Se segue apenas a imprensa nacional para se manter informado sobre o que se passa no mundo do futebol numa base diária é bem provável que a conquista do campeão japonês, a J.League, por parte dos Kashima Antlers lhe tenha passado ao lado. Ora, numa corrente noticiosa que cada vez mais se centraliza nos principais campeonatos europeus e nos aspetos mais mediáticos do momento, a conquista do campeonato por parte do histórico emblema nipónico tem implicações que se sobrepõem à própria J.League: como país anfitrião do Mundial de Clubes, o recém coroado campeão japonês ganhou a oportunidade de fazer parte da competição. Com essa conquista e presença histórica numa competição encabeçada pelo Real Madrid, um protagonista muito particular despertou a atenção da Crónica Futebolística, ele que foi uma presença regular no futebol português nas épocas 13/14 e 14/15.

     Iniciando a sua carreira sénior aos 18 anos como médio de características ofensivas, Mu Kanazaki fez 3 épocas completas no Oita Trinita, clube que foi tendo graduais dificuldades em acompanhar os tempos e se vai encontrar na J2 League, 2º escalão do futebol nipónico, após assegurar a subida de divisão na temporada que há pouco terminou. Com uma transição subtil e lenta a posições mais subidas no terreno, foi na sua 3ª temporada pelo Trinita que Kanazaki começou a jogar mais regularmente como o homem mais avançado no terreno. Desenvolvimento esse que estagnou nas 3 temporadas seguintes, onde defendeu o Nagoya Grampus: encostado aos flancos, registou apenas 9 golos em 69 partidas pela formação que há 20 anos foi orientada por Àrsene Wenger. 

     Tendo representado sem sucesso o Nuremberga em 2012/2013, a sua estadia na Alemanha ganha contornos de imenso relevo porque foi daí que rumou ao Portimonense na temporada seguinte. Apesar do claro faro de golo que mostram os 7 golos em 30 jogos na sua época de estreia na Segunda Liga, o japonês continuou a atuar quer nos flancos quer no miolo e onde, apesar de ter brilhado, dificilmente poderia atingir a plenitude do seu potencial. Depois de ter marcado uns incríveis 9 golos em 17 jogos na primeira metade da época em 14/15 - ora no flanco ora como o médio mais criativo no terreno de jogo - o futebol japonês chamou por Kanazaki que rumou, na temporada japonesa de 2015, por empréstimo ao Kashima Antlers. Os 15 golos em 36 jogos em todas as competições fizeram com que os responsáveis dos nipónicos não olhassem para Kanazaki como um médio ou como um extremo, mas sim como um ponta-de-lança ou, no mínimo, como uma peça fulcral no apoio do jogador mais avançado. Embora tenha regressado ao Portimonense no início de 2016, seria imperdoável o Kashima Antlers não terem requisitado os seus serviços em definitivo.

     A partir do momento em que Mu Kanazaki deixou de alinhar como médio, extremo ou mesmo avançado de forma apenas esporádica, no início da época de 2016, a diferença foi clara. O Kashima Antlers teve a ousadia e a inteligência que os antigos clubes do goleador não tiveram: adaptar o jogador, de forma definitiva, à posição no terreno onde se sente mais confortável. E, graças a essa adaptação, Kanazaki é neste momento o jogador mais mediático do futebol japonês. Já lá vamos.

     Com 4 jogos disputados pelo Portimonense após regressar de empréstimo, o clube japonês acabou por não deixar escapar Kanazaki, na altura prestes a completar 27 anos de idade. Visto pelo clube nipónico como uma das grandes esperanças após a conquista da JLeague Cup na época de 2015, a primeira temporada do número 33 do Kashima Antlers não podia ter corrido melhor. Adaptado definitivamente a ponta-de-lança, provavelmente a maior falha dos clubes onde passou anteriormente, e apesar de uma segunda ronda menos forte (o campeonato japonês está dividido em duas fases de 17 jornadas, com a fase final a ser disputada numa única meia-final e final a duas mãos), Kanazaki terminou a fase regular do campeonato com 10 golos e 8 assistências em 30 jogos, contribuindo assim diretamente para 18 dos 54 golos que a equipa marcou na 1ª e 2ª fase da JLeague. De notar que, tendo vencido a 1ª fase do campeonato e sendo a 1ª das 3 equipas apuradas para a fase de campeão, acaba por ser natural uma 2ª volta menos intensa por parte dos agora campeões japoneses.

     Depois de um campeonato bastante bem conseguido, foi a partir do dia 23 de novembro que a carreira de Mu Kanazaki, internacional japonês pela 1ª vez em 2009, se iria projetar para um nível inteiramente diferente em termos de mediatismo. Com um lugar vago na final JLeague frente ao Urawa Red Diamonds, jogando fora em casa do Kawasaki Frontale, seria um golo do antigo homem do Portimonense a catapultar os Antlers para a final do campeonato e, depois de ganhar a taça na época anterior, dar a oportunidade à equipa de vencer o campeonato pela 1ª vez desde 2009.


     A verdade é que as coisas começaram da pior forma possível para os homens de Masatada Ishii na 1ª mão da final do campeonato. Um golo solitário dos Urawa Red Diamonds - em casa dos Kashima Antlers, ainda para mais - deu vantagem aos visitantes para gerir no jogo em casa, que podiam conquistar o título japonês pela 2ª vez na sua história, depois duma conquista isolada em 2006. Finalistas vencidos em 4 competições nos últimos 5 anos, os Urawa Reds são vastamente reconhecidos pela sua capacidade inacreditável de falhar nos momentos mais decisivos... e a história iria voltar a repetir-se, desta feita aos pés de Mu Kanazaki!

**pode ver os 2 golos de Kanazaki no jogo decisivo do campeonato aos 1:55 e 4:10 do vídeo acima.

     A infelicidade voltou a cair para o lado da equipa que, a jogar em casa, foi mais uma vez finalista vencida e teve de se contentar a ver a equipa adversária a levantar a taça de campeão no seu próprio estádio, diante dos seus mais de 50 mil adeptos. Um dos melhores jogadores do campeonato no decorrer da fase regular - como já foi dito, com 10 golos e 8 assistências em 30 jogos -, 2 golos do protagonista desta peça dariam o triunfo e a taça de campeão japonês aos Antlers, equipa que na década de 90 teve como uma das grandes estrelas Leonardo Araújo, antigo treinador do AC Milan e Inter. 3 golos em 3 jogos na fase de campeão deram a Mu Kanazaki não uma, mas duas honras: além de ser eleito MVP (jogador mais valioso) da fase final, o ponta-de-lança foi ainda eleito o melhor jogador de todo o campeonato japonês.

      O futebol é, realmente, algo maravilhoso. E estranho, por vezes. No final de 2014 Mu Kanazaki jogava no Portimonense Sport Clube (sem qualquer desrespeito ao clube ou à competição que integra) e, apesar da média de golos notável, atuava como médio. Avançando o calendário 2 anos, foi uma das peças mais importantes na conquista do campeonato japonês por parte do histórico Kashima Antlers, vencendo os 2 prémios individuais mais prestigiados da competição. Além do campeonato e dos prémios individuais, como referido no princípio do artigo, a conquista em si tem implicações que ultrapassam o futebol japonês, já que o vencedor da JLeague 2016 tinha lugar reservado no Mundial de Clubes, como representante do país anfitrião da competição. E que bom uso fez o goleador desse mesmo facto...

     Saltando do banco na 2ª parte, já no tardio minuto 88, Kanazaki daria a vitória ao Kashima Antlers frente aos neo-zelandeses do Auckland City na cidade de Yokohama nesta passada quinta-feira, feriado nacional em Portugal, garantindo aos nipónicos um lugar nos quartos-de-final do Mundial de Clubes, disputado justamente no país do sol nascente. O próximo desafio será os sul-africanos do Mamelodi Sundows, vencedores da Champions League africana, com o vencedor dessa partida a encontrar o Atlético Nacional nas meias-finais da competição que reúne clubes de todo o mundo.

     Desde o dia 23 de novembro de 2016, tudo isto aconteceu a Mu Kanazaki:

     ⤳  Deu ao Kashima Antlers o apuramento para a final da JLeague;
     ⤳  Bisou no jogo decisivo, dando o título de campeão à sua equipa;
     ⤳  A sua prestação foi recompensada com os prémios de MVP das finais e da JLeague 2016;
     ⤳  Saltou do banco e garantiu os quartos-de-final do Mundial de Clubes para os Antlers.

     O futebol, como a vida, pode dar voltas inacreditáveis numa questão de segundos ou dias. E no futebol, como na vida, muitas coisas conseguem ser alcançadas apenas através da capitalização de oportunidades. Tal como Mu Kanazaki capitalizou as oportunidades que lhes foram dadas pelo Kashima Antlers, onde numa questão de duas semanas se tornou no jogador mais falado de todo o campeonato japonês. E, claro, apenas por bons motivos.

     De Portimão a Yokohama, no Mundial de Clubes, em 2 anos. Nada é impossível.

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Depois de uma fantástica participação no EURO 2016, o País de Gales iniciou da melhor maneira a qualificação para o FIFA World Cup 2018, disputado na Rússia. Os galeses golearam a Moldávia por 4-0 e procuram a sua primeira qualificação para um mundial desde 1958, na altura com Pelé a ditar nos quartos-de-final o afastamento dos galeses da competição. Com uma exibição vistosa e alguns momentos de encher o olho, o grande destaque da noite surgiu já depois do apito final. O cruzamento fantástico de Gareth Bale ou o par de golos do próprio craque do Real Madrid ficam atrás do tremendo gesto que protagonizou  James Collins.
     Durante uma série de remates à baliza, no período de aquecimento antes da partida, o central do West Ham foi autor de um remate que saiu bastante desviado do alvo, atingindo na cara uma criança nas bancadas. Imediatamente ciente do que tinha acontecido, o jovem Ryan Evans foi assistido pelo staff médico - onde felizmente se chegou à conclusão que o lance não tinha passado de um susto - e foi de seguida abordado pelo próprio Collins, que subiu a bancada atrás da baliza, preocupado com o adepto galês. Para compensar o pequeno, Collins ofereceu-lhe depois a camisola de Gareth Bale, o seu ídolo. Camisola essa que seria visível na foto em que Ryan posou com o central do West Ham. Com o jovem a ser recompensado pelo remate que teve demasiada pontaria, pensaria-se que seria este o final da história. Mas não para Collins...

     Para sua surpresa o pai do jovem Ryan, Darren Evans, iria receber ao princípio da tarde de hoje uma mensagem na rede social Instagram do próprio James Collins, mensagem a qual está transcrita abaixo:

     Olá Darren,

     Estou bastante feliz em saber que ele está bem, peço desculpa... foi um remate horrível! Eu próprio tenho 3 filhos portanto compreendo o quão preocupado provavelmente o fez sentir e o quão chateado deve ter ficado o Ryan... provavelmente devo dedicar-me a defender e não a rematar! Se me mandar a sua morada e o tamanho que veste e calça o Ryan irei-lhe mandar algumas peças do West Ham e da Nike como forma de me desculpar. Espero que tenha gostado do jogo ontem e, como sempre, obrigado pelo apoio.
     É seguro dizer que a classe pura de James Collins está a conquistar adeptos pelo país de Gales e, seguramente, por todo o mundo. São atitudes como estas que colocam o futebol num pedestal em termos de emotividade e faça com que jovens como Ryan Evans possam ter recordações para toda a vida. Peças como estas são importantes para destacar o lado humano dos atletas que, tal como qualquer um de nós, são meramente pessoas. E infelizmente, seja porque razão for, há quem se esqueça disso.

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     Uma nova temporada traz, quase inevitavelmente, surpresas. E essas mesmas podem surgir de diferentes maneiras: uma contratação surpresa, um campeão que desilude de forma inesperada ou uma equipa que não vai correspondendo às expectativas que lhe eram atribuídas. Sendo o início de temporada no futebol europeu um período sempre agitado - mais do que o costume - pelo facto das equipas ainda não terem os plantéis fechados, não terem todos os atletas ao seu dispor ou simplesmente por entrarem nas competições com o pé esquerdo, há, no reverso da medalha, um grupo de equipas que pode surpreender ao longo da temporada e mostrar uma consistência ou brilho que poucos achariam, deveras, possível de prever. 

     Nesta lista - cuja ordem é completamente aleatória - de 10 equipas a Crónica Futebolística reuniu dados essenciais para o estudo das equipas (desde a sua postura no defeso à sua ideologia tática) e juntou, abaixo, uma compilação das 10 equipas a nível europeu a ter em conta na época que há pouco arrancou.

     Esta peça reflete a opinião e visão de Luís Barreira, administrador do projeto.
Devido à longa extensão do artigo, cada parte terá o perfil de 2 equipas*, totalizando 5 partes.

*sendo a única portuguesa presente no artigo, esta parte será unicamente dedicada ao Vitória SC.

Esta é a segunda parte do artigo. Consulte a primeira parte, com perfil de Swansea e Twente.




VITÓRIA SC

A eliminação precoce dos vimaranenses face ao Altach na 3ª pré-eliminatória de acesso à Liga Europa deu o mote para aquela que seria uma época para esquecer. Mais do que as derrotas, as exibições pobres da formação de Armando Evangelista nesse par de partidas deram indicações pouco favoráveis - com a exceção de algumas notas positivas de cariz individual - para o início do campeonato e das competições internas. As previsões estavam assim corretas, com os vitorianos a realizarem uma entrada no campeonato muito aquém do que é tradição para o emblema da cidade berço, com apenas uma vitória numa mão cheia de jogos. E se é verdade que Armando Evangelista não convenceu no comando técnico da equipa portuguesa, Sérgio Conceição não faria jus à caminhada de Rui Vitória na temporada 2014/2015. Depois de um período de integração com resultados pouco positivos, as expectativas das gentes de Guimarães foram elevadas de forma substancial, fruto do registo positivo que viu a equipa vencer por 7 ocasiões em 12 jogos, perdendo por apenas 3 vezes entre a jornada 9 e 20. Depois esse triunfo sobre o Vitória FC, nessa mesma jornada 20, os comandados de Sérgio Conceição ocupavam um lugar europeu na 5ª posição. A partir daí, uma queda vertiginosa. E se a equipa vitoriana perdeu por apenas 3 ocasiões numa caminhada de 12 jornadas, ganharia apenas uma nas últimas 14, onde somaria um péssimo registo de 7 empates e 6 derrotas, onde a única vitória surgiu no último embate caseiro, com uma goleada frente ao rival Moreirense.

     Esse triunfo a fechar os jogos caseiros da época o Vitória não iria iludir porém os adeptos, cuja desilusão era visível tendo em conta os maus resultados adquiridos com Armando Evangelista primeiro e, apesar de um bom período, com Sérgio Conceição. Numa equipa com tamanha tradição como o Vitória SC, era mandatário corrigir os problemas e formar uma base coesa não só para a próxima época, mas como também construir os alicerces para um projeto de sucesso para uma massa associativa que, pelo apoio constante, merecia melhor.

PORQUE É QUE O VITÓRIA SC PODE SURPREENDER EM 2016/2017?

     Deixando para trás uma época de más recordações, os vitorianos iniciaram da melhor forma o seu percurso ainda sem jogar, contratando Pedro Martins para o lugar de Sérgio Conceição, um técnico com uma personalidade forte mas com óbvias fragilidades em termos de fundamentalismos táticos. A aposta no técnico de Santa Maria da Feira prometia assim não só uma personalidade forte no banco de suplente, mas o acréscimo de ter muita competência dentro de campo, taticamente falando. Há poucos treinadores em Portugal nos últimos anos, excluindo alguns dos técnicos dos 3 grandes portugueses, com o currículo de Pedro Martins, à defesa da instituição que representa à garantia de resultados. Foi assim no Marítimo e no Rio Ave onde, além de levar as respetivas formações à Liga Europa, desenvolveu ou fez ressurgir o caráter das equipas dentro de campo. Cabe a ele, no Vitória, devolver vida a um espírito fortíssimo dentro e fora de campo que, nunca morrendo, ficou certamente desiludido com a época passada.

     Contratando também fora de portas, Pedro Martins provou mais uma vez o seu conhecimento e sobretudo confiança no mercado português, reforçando a equipa com jogadores ligados ao futebol nacional. João Aurélio, Rúben Ferreira, Moussa Marega (por empréstimo) e Soares, todos titulares na vitória expressiva frente ao Paços de Ferreira, alinhavam no campeonato português antes da sua mudança para a cidade berço. As grandes vantagens em relação a contratar ao estrangeiro são a dos jogadores em questão conhecerem a realidade do clube e do campeonato em que alinham, sendo também mais acessível para o técnico - neste caso Pedro Martins - conhecer mais de perto as qualidades e aspetos a melhorar dos jogadores em questão, tendo em conta que já os defrontou no passado. Embora muitas vezes seja mais tentador contratar fora de portas, seja que por razão for - e o argumento de que "o estrangeiro é melhor" já está fora de moda por esta altura -, o campeonato português conta com grandes talentos em todas as formações. Cabe aos mais atentos reconhecê-los.

     Noutra nota, e embora não seja um jogador português ou tenha jogado no campeonato nacional na temporada passada, a inclusão de Bernard na formação vitoriana até ao final da época será extremamente valiosa: depois de ter conquistado poucos minutos no campeonato espanhol, o menino que já é um senhor jogador volta ao Norte do país para uma casa que bem conhece e representou com grande sucesso, especialmente na época passada onde explodiu no principal escalão do futebol português. Um verdadeiro todo-o-terreno no miolo, terá a companhia de mais um regressado, desta feita Hernâni que, cedido pelo FC Porto, já conhece os cantos à casa. Rápido e forte na decisão, o lisboeta é uma adição extremamente bem-vinda pelos vimaranenses para o corredor ofensivo. Os bons filhos à casa voltam e, neste caso em particular, os filhos podem ser peças importantíssimas para Pedro Martins, quer para a titularidade quer para um sistema de rotação, tendo em conta a exigência da temporada que ainda agora começou.

     E se o investimento do clube da cidade berço no mercado de transferências merece ser mencionado, a aposta na formação merece igualmente ser vincada, algo que já é apanágio do emblema nortenho. Tendo iniciado o seu percurso futebolístico no Desportivo de Ronfe, o médio João Pedro vai rapidamente traçando um caminho heróico no Vitória Sport Clube, clube que representa há uma década. Com 23 anos, o jogador natural de Guimarães representou todos os escalões de formação do clube - desde que a idade o permitisse - desde 2006, na altura com 13 anos. Sempre profissional e paciente, João Pedro esperou pela oportunidade que eventualmente ia chegar. Passou de júnior a uma das figuras mais importantes e carismáticas da equipa B dos vitorianos nos 4 anos em que representou a equipa, com esporádicas oportunidades na equipa principal. A sua grande conquista chegaria este ano, 10 depois de vestir a camisola do Vitória pela primeira vez, com Pedro Martins a confiar no jovem médio para atuar ao lado de Rafael Miranda no miolo do xadrez vitoriano. É, depois de 270 minutos oficiais, totalista. E se na época passada a Crónica Futebolística elegeu João Pedro como uma das possíveis revelações do campeonato nacional, esta, sim, será a época de afirmação do vimaranense.

     Sem grandes alterações nos 2 maiores protagonistas na baliza vimaranense, Douglas e João Miguel Silva continuam a ser o par convocado para os 3 confrontos oficiais da época até ao momento. Lançado na época passada, tendo feito 24 jogos pela formação da cidade berço, o jovem guardião português ainda não teve oportunidade para se estrear esta época, mas terá certamente oportunidade de brilhar nas taças, enquanto o brasileiro Douglas, adorado na cidade berço e com um tremendo nível de experiência, recuperou a titularidade que perdeu durante a época passada, tendo em conta o espetacular momento de forma de João Miguel Silva, correspondendo em muitos momentos em que foi chamado. Com 21 anos, a sua evolução será claramente um dos aspetos a ter em conta por Pedro Martins. Trabalhar mais uma temporada com Douglas, um líder nato com tamanha experiência, será uma dádiva para o guarda-redes de Santa Eufémia de Prazins. Mantendo a sua baliza virgem frente ao Marítimo, ainda para mais fora, é até agora o momento alta da época de Douglas no Vitória, que já representa desde 2010.

     Com os corredores laterais renovados, Pedro Martins procurou jogadores experientes no que ao futebol português diz respeito. Com 26 e 28 anos respetivamente, Rúben Ferreira e João Aurélio são jogadores que ainda têm margem de evolução na cidade berço, contando ambos com uma assistência no campeonato até agora, onde atuaram como titulares nos 3 jogos do campeonato. Ambos contratados a equipas madeirense, Rúben não conhecia outro emblema que não o Marítimo desde 2007 e João vestia a camisola do Nacional desde 2008, onde tem um ponto a favor: embora também seja eficaz no corredor defensivo - um aspeto que tem vindo a melhorar de forma consistente -, o jogador nascido em Beja tem uma tremenda facilidade em atuar numa zona mais subida no terreno, ele que se destacou como extremo direito numa fase mais precoce da carreira. Se algo correr mal nos corredores laterais, Josué Sá e Pedro Henrique serão os tapa-furos dos vitorianos, eles que até agora estiveram em bom plano pelos vitorianos apesar da derrota na jornada inaugural do campeonato. Depois de uma época de afirmação, o central brasileiro Pedro Henrique parece construir uma notável dupla de centrais com Josué, de 24 anos, que se estreou na equipa principal do Vitória em 12/13 e representa os vimaranenses desde 2009.

     Sem Cafú - totalista na Ligue 1 até agora - e com a dupla de João Pedro e Rafael Miranda já mencionada acima, é de sublinhar mais uma vez que Bernard será importantíssimo para o técnico do Vitória, a titular ou a sair do banco. Tendo todo um leque de qualidades que podem decidir uma partida - a disponibilidade física, a dedicação, a qualidade de passe e inteligência com e sem bola - o ganês regressa ao berço num momento diferente no qual rumou ao Atlético de Madrid, mas não por isso um momento menos bom. E, se brilhou sobre Rui Vitória, pode fazer o mesmo esta época. Mas podendo ocupar a posição 8, o ganês pode também entrar numa posição mais avançada, a de médio ofensivo/segundo avançado, nesta altura ocupada e muito bem pelo peruano Paolo Hurtado, regressado depois de representar o clube da cidade berço na segunda metade da temporada passada. O desejo de regressar foi demasiado forte e, negociando com o Reading de Inglaterra, os vitorianos adquiriram outro atleta com fortes raízes ao futebol português. E de grande qualidade, vale a pena referir.

     Em termos de extremos, Raphinha, na esquerda, é o extremo mais puro da equipa. Desequilibrador por natureza, o brasileiro de 20 anos tem um papel diferente de Moussa Marega, mais forte do que o brasileiro nalguns aspetos de jogo, mas mais frágeis noutros. É, dadas essas mesmas fragilidades, que Marega deriva inúmeras vezes para o centro, mais perto das áreas de finalização. O jogador do Mali cedido pelo FC Porto é possante e não tem o devido crédito no que toca a qualidade técnica, mas, não bailando tanto como Raphinha, é sobretudo um jogador que usa a sua potência para ganhar metros na sua posição e abrir espaços para os adversários. As suas derivações para o centro que lhe valeram 2 golos frente ao Paços de Ferreira são facilitadas devido à facilidade de João Aurélio em aventurar-se no flanco direito, uma qualidade já mencionada no artigo.

     Já mencionado acima quando se escreveu sobre o investimento do Vitória em jogadores com provas dadas no campeonato, falou-se em Soares. O atacante de 25 anos esteve na Madeira nas últimas duas temporadas, explodindo no Nacional em 15/16 quando marcou 14 golos em 35 partidas oficiais disputadas. Emprestado pelo Veranópolis ao emblema brasileiro, o Vitória mais uma vez antecipou-se a possíveis concorrentes na aquisição do atleta, reforçando de forma preciosa o seu ataque. Além de finalizar com facilidade, Soares oferece-se muito ao jogo em termos físicos e tem uma função importante de, quando mais ninguém o consegue, reter a bola contra a defensiva adversária. Soares consegue libertar a bola para finalizar com uma velocidade estonteante, mas pode também ser muito difícil tirarem-lhe a bola dos pés.

     Havendo equipas no campeonato cuja segunda linha - ou pelo menos jogadores normalmente utilizados como suplentes - é notoriamente inferior à primeira, é de se referir que a formação vitoriana tem opções válidas para praticamente todas as posições e de forma bastante eficaz. Se na baliza há João Silva, um dos guarda-redes mais promissores do futebol português, no centro da defesa há a certeza que é João Afonso e o experiente Moreno - que também atua como médio defensivo com a mesma facilidade -, com Bruno Gaspar a fazer valer a sua qualidade para atuar em qualquer corredor lateral. Com Tozé à espreita para um lugar de unidade média mais ofensiva e Bernard a ser um reforço imenso, o leque de opções para extremos ganha outra categoria com a inclusão de Hernâni na equipa durante a próxima época, juntando-se a alternativas como Xande Silva ou Alex. Com Areias a esperar pela oportunidade de brilhar no centro do ataque vimaranense, o instinto fatal de Moussa Marega nos últimos 2 jogos do campeonato podem fazer com que Hernâni seja o utilizado no corredor direito, experimentando, porventura, Marega no centro. Não abundando soluções para todas as posições com a mesma qualidade dos jogadores mais utilizados até agora, o Vitória tem muita competência no banco.

     Um ponto a favor para Pedro Martins é o rumo e o potencial da equipa B do Vitória. A equipa de Vítor Campelos parece estar destinada a fazer um excelente campeonato na Ledman Liga Pro, com elementos de grande qualidade de defesa ao ataque. Seguindo as pisadas da equipa principal, o Vitória B já mostrou não ter problemas em assumir o jogo e tem, de facto, protagonistas com qualidade e inteligência para o fazer. Neste primeiro momento de temporada, alguns dos maiores protagonistas têm sido o defesa Ricardo Carvalho, os médios Tiago Castro e André Almeida - pelo facto de com 16 anos ter atuado em titular nos 3 jogos até agora e com muita qualidade -, o extremo neozelândes Tyler Boyd que abriu o campeonato com um golaço frente ao Santa Clara nos Açores e Bence Biró, hungaro que se mostra ser um autêntico portento físico no ataque.

     Concluindo, Pedro Martins e o Vitória, num só, têm todas as competições para fazer um grande campeonato e ambicionar uma boa campanha nas restantes taças nacionais devido à razoável profundidade do plantel, com os acima mencionados trunfos presentes na equipa B. Apoio não faltará e seria uma surpresa se o técnico de Santa Maria da Feira não repetisse o sucesso que tive na Madeira e em Vila do Conde.

Luís Barreira, Crónica Futebolística