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     Uma nova temporada traz, quase inevitavelmente, surpresas. E essas mesmas podem surgir de diferentes maneiras: uma contratação surpresa, um campeão que desilude de forma inesperada ou uma equipa que não vai correspondendo às expectativas que lhe eram atribuídas. Sendo o início de temporada no futebol europeu um período sempre agitado - mais do que o costume - pelo facto das equipas ainda não terem os plantéis fechados, não terem todos os atletas ao seu dispor ou simplesmente por entrarem nas competições com o pé esquerdo, há, no reverso da medalha, um grupo de equipas que pode surpreender ao longo da temporada e mostrar uma consistência ou brilho que poucos achariam, deveras, possível de prever. 

     Nesta lista - cuja ordem é completamente aleatória - de 10 equipas a Crónica Futebolística reuniu dados essenciais para o estudo das equipas (desde a sua postura no defeso à sua ideologia tática) e juntou, abaixo, uma compilação das 10 equipas a nível europeu a ter em conta na época que há pouco arrancou.

     Esta peça reflete a opinião e visão de Luís Barreira, administrador do projeto.
Devido à longa extensão do artigo, cada parte terá o perfil de 2 equipas, totalizando 5 partes.



SWANSEA CITY

Os galeses, comandados por Francesco Guidolin desde janeiro, terminaram a época passada de forma tranquila, beneficiando dos elementos que o técnico italiano trouxe para a mesa. Com apenas 3 derrotas nas suas 11 últimas jornadas no campeonato, as perspetivas para esta temporada só podiam ser favoráveis. O período de Garry Monk no clube britânico careceu do brilhantismo que tiveram homens como Brendan Rodgers ou Michael Laudrup em determinados períodos no mesmo cargo, com a aposta num técnico com provas dadas a ser mandatária, mesmo que num campeonato diferente - o campeonato italiano, no caso de Guidolin. O lançamento dos dados foi favorável e os galeses aproveitaram da melhor forma o ímpeto conquistado no final da época passada, marcando novamente terreno na Premier League como uma força a temer e não uma instituição em vias de estagnar, como se foi verificando noutros clubes ingleses nos últimos anos. E a verdade é que, mesmo perdendo o seu maior símbolo dentro de campo, os Swans foram agressivos no mercado, colmatando os setores mais necessitados com reforços respeitáveis e, num caso em particular, chocante por várias formas. Acreditaria que, depois de Juventus e Sevilha, o basco Fernando Llorente iria alinhar pelos cisnes?

PORQUE É QUE O SWANSEA PODE SURPREENDER EM 2016/2017?

     A aposta na continuidade do italiano Francesco Guidolin é definitivamente o passo certo para colocar o clube na direção certa - a qual começou a encontrar na segunda metade da temporada passada - e o mercado de transferências acaba por ser uma bênção para uma equipa que, apesar de perder o seu capitão, contratou pouco, mas com critério e, por sinal, muito bom. 

     As contratações de Fernando Llorente e Borja Bastón - que se pode até revelar como a principal figura da equipa se conseguir marcas semelhantes às que alcançou nas suas últimas duas épocas - são incontestáveis melhorias em relação a Alberto Paloschi (2 golos em 10 jogos, tendo um pique de forma na primeira metade da temporada no Chievo, mas não correspondendo a Guidolin, ao qual foi aposta pessoal), Bafétimbi Gomis (7 golos em 35 jogos) ou mesmo Éder que, apesar de ter convencido no Lille a partir de janeiro, não conseguiu marcar pelos galeses em 15 partidas. Para colocar as coisas em perspetiva, Borja Bastón marcou, sozinho, mais do dobro golos na temporada passada no Eibar (19) do que Paloschi (2), Éder (0) e Gomis (7) juntos no Swansea. Tendo apontado "apenas" 16 golos nas últimas 2 épocas - tendo em conta as épocas estrondosas que fez no passado -, Fernando Llorente é um nome incontestável e apresenta elementos que farão os seus adversário tremer: a presença física, a mobilidade, a inteligência com e sem bola e a capacidade de finalização, todos eles aspetos determinantes ainda para mais no futebol inglês, onde a mobilidade e o físico acabam por ter uma maior relevância do que noutros campeonatos mais recetivos aos poachers ou, se preferir, avançados mais fixos.´

     Apesar da total renovação no que toca à sua unidade mais atacante, há algo que não muda: a presença incontornável de Gylfi Sigurdsson, sempre com uma classe tremenda, na entrada do último terço. Depois de 2011/2012 onde atuou por meia época nos galeses, emprestado pelo Hoffenheim, e das 2 épocas satisfatórias do Tottenham, o islandês prepara-se para fazer a 3ª época completa pela formação que atua no Liberty Stadium. Além de assistir com categoria, pautar o jogo e ser incrivelmente ousado com a bola nos pés, os 20 golos nas últimas duas temporadas em todas as competições fazem dele um nome obrigatório de menção numa lista com os melhores batedores de bolas parada no futebol inglês ou numa lista que enumere as principais razões de sucesso recente por parte dos britânicos. Num sistema que privilegia a presença de um médio de características quase unicamente atacantes, Sigurdsson é um dos elementos mais importantes no xadrez de Guidolin.

     Desde 2002 no clube, Leon Britton irá assumir na totalidade a liderança da equipa dentro de campo que outrora parecia pertencer ao autoritário Ashley Williams, agora no Everton. O médio defensivo inglês de 33 anos voltou ao seu bom nível na temporada passada depois de um 2014/2015 marcado por uma longa lesão no joelho e estará agora acompanhado de Leroy Fer e Jack Cork como opções válidas para atuar ao seu lado - tendo estes 2 últimos atuado no último jogo do campeonato, via doença de Britton. A dinâmica acaba por não ser radicalmente diferente de equipas que atuam com este sistema de 4-2-3-1, atuando um médio na posição 6 e outro, mais equilibrado, na posição 8. A verdade é que, a reforçar algum setor, é elementar referir que o Swansea necessita de um elemento extra no meio-campo para colmatar eventuais ausências ou lesões.

     Tal como no centro do ataque, o centro da defesa dos Swans tem um tom espanhol, com Jordi Amat e Angel Rangel. O argentino Federico Fernandez iniciou a sua 3ª temporada com o clube, sendo um absoluto indiscutível nas suas duas primeiras épocas no País de Gales. Amat foi até ao momento totalista na Premier League e parece ser a opção mais lógica para atuar ao lado do argentino numa dupla de centrais latina, sendo eles o último obstáculo para a ofensiva até chegar a Fabianski, um homem ao qual as balizas do Liberty Stadium estão muito bem entregues. É de mencionar, apesar de tudo, a necessidade dos galeses em reforçar o plano defensivo, já que não há para já alternativas para o corredor esquerdo.

     Com o crescente aumento de competitividade entre os grandes do futebol inglês e os clubes que cada vez mais se vão afirmando como o Tottenham ou mesmo o atual campeão em título Leicester, é indecente pedir aos galeses que repitam a presença europeia conseguida por Laudrup, mas é legítimo pedir mais uma época tranquila, desta vez com mais brilho e maior consistência. E isso será, certamente, alcançável.

TWENTE

Depois de uma época extremamente inconsistente por parte dos holandeses, parece que ao Twente só resta relembrar o inacreditável início de década, onde venceram o campeonato em 2010 e a taça em 2011, vencendo inclusive as respetivas supertaças. Após um - no máximo - modesto 12º lugar na temporada passada, a formação de Enschede parece viver na conformidade, à espera da manutenção e sem grandes objetivos de relevo. Meia década depois de um dos períodos mais brilhantes da história do clube, o Twente parece viver um dos piores. Com 1 vitória em 3 jogos na Eredivisie e já com uma derrota caseira, parece difícil pensar que podem ambicionar algo mais desta temporada que ainda iniciou. Com um registo de golos sofridos que parece piorar de época para época, o Twente vive dias negros. A verdade é que, em maio, o clube pertencia ao segundo escalão do futebol holandês, depois de problemas relacionados com fundos terem feito a federação descer o clube de divisão. O apelo foi aceite e, de novo na primeira divisão - onde da qual tecnicamente nunca saiu -, a formação de Entschede procura algo que muitos não têm, seja no futebol ou em qualquer aspeto da vida: uma segunda oportunidade. E é por aí que o Twente se pode motivar para, depois da uma época terrível, tentar ser melhor. E aproveitar da melhor forma uma oportunidade rara.

PORQUE É QUE O TWENTE PODE SURPREENDER EM 2016/2017?

     Como foi mencionado acima, o Twente tem uma chance quase milagrosa para brilhar nesta temporada. Sem argumentos de um clube de topo no país - embora já o tivesse sido e não há muitos anos -, a equipa de Entschede procura ser consistente, algo que no estilo ofensivo holandês acaba por ser deveras difícil. Não ajuda que as suas maiores referências acabem por se transferir eventualmente - o salto para outra realidade é totalmente compreensível - com o Twente a não ter condições desportivas ou financeiros para reter jogadores como, por exemplo, Jesús Corona. Não tendo propriamente um jogador de franchise, alguém com um contrato longo e que esteja pronto para assumir a liderança da equipa dentro de campo, tem alguém que a curto-prazo pode dar muito à formação vermelha: Enes Ünal.

     Se há um jogador que pode fazer a diferença na formação holandesa é sem dúvida o turco, com a motivação extra de impressionar Pep Guardiola num dos plantéis mais competitivos do futebol europeu. Com 19 anos feitos em maio, Ünal foi autor de um dos melhores hat-tricks que alguma vez verá, sendo o melhor em campo numa partida onde, apesar de sofrer de forma desnecessária, o Twente acabou por vencer 4-3. Os 3 golos em 16 minutos deixam água na boca dos adeptos, tal como os 9 golos apontados em 14 partidas pelo NAC Breda na segunda metade da temporada passada, onde também esteve emprestado pelo City. Uma época completa e competente no Twente pode ser fundamental para receber uma oportunidade na pré-temporada dos citizens e, quiçá, receber uma oportunidade no plantel principal.

     Com a juventude a ser uma característica recorrente na maior parte das formações holandesas do primeiro escalão, o emblema de Entschede conta com um plantel extremamente jovem, rondando uma média de 22.5 anos. De referir que, com a exceção de Chinedu Ede (29), o central Katsikas e o playmaker Klich são os jogadores mais velhos do plantel com 26 anos. O facto do plantel ter 11 jogadores com menos de 21 anos é tão notável como é preocupante: tanto pode servir o argumento de falta de experiência, como o de uma maior irreverência que se pode ir revelando ao longo da época. O maior problema do plantel em termos etários será, porventura, a falta de jogadores experientes para equilibrar a balança, tendo em conta o largo número de jogadores muito, muito jovens.

     Apostar no Twente é - e quando se mantiver a atual conjuntura, sempre será - arriscado devido à inconsistência que a equipa tem mostrado nos últimos jogos e mesmo nas últimas temporadas, sendo capaz do melhor e do pior num curto espaço de tempo. É de esperar, contudo, uma época superior à passada. Um dos pontos incontestáveis na situação do clube é a elevada dose de talento liderado por Enes Ünal, mas se o futebol nos ensinou algo é que o talento puro não é ou pode não ser tão importante como outros aspetos como a experiência ou organização tática. A Crónica Futebolística está, porém, confiante de que o Twente irá fazer uma época surpreendentemente positiva, mas com objetivos limitados nas próximas temporadas.


Luís Barreira, Crónica Futebolística
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