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  Jorge Rodrigues é o mais recente entrevistado da Crónica Futebolística. Com sete clubes no seu currículo profissional, passando por clubes como o Tondela ou o histórico Boavista, o central de 32 anos nascido em Vila Real foi contactado pelo blog para contar tudo acerca de aspetos relevantes da sua carreira e sobre a nova realidade futebolística que alinha pelo Nömme Kalju, clube estónio para o qual se transferiu em 2011. Mais do que um breve agradecimento a esta grande pessoa, quero desejar tudo de bom para um futebolista ambicioso, esforço e extremamente acarinhado pelos adeptos estónios como tive oportunidade de descobrir nas últimas semanas. Pode ler a entrevista em baixo na íntegra.

1. Fez formação no seu clube local, o Vila Real, e daí foi subindo patamares na sua carreira até à Estónia, onde venceu o seu primeiro título oficial. Apesar desse sucesso em 2012 consegue apontar algum arrependimento na sua carreira futebolística?

  Olá a todos vocês! Sou de Vila Real, Trás-os Montes, e por essa razão as nossas oportunidades são já menores em comparação a quem vive nas grandes metrópoles... mas consegui mesmo assim, com muito trabalho, sair da minha terra e talhar a minha carreira fora de portas. 

  Claro que podia talvez ter feito outra progressão em clubes com maior visibilidade, mas todos nós temos altos e baixos: faltas de oportunidades ou erros de juventude que me fizeram perder boas oportunidades. Mas no fundo não me arrependo de nada por uma simples razão... tive as experiências necessárias  para crescer como atleta e como homem. Poder ter sido campeão e saborear como saboreei em 2012... tudo o que sou hoje devo ao que tive no passado! Para responder à tua pergunta então... não me arrependo de nada e estou muito feliz por ter representado todos os clubes que representei e trago todos um pouco no meu coração pois dei e deram-me muito para ser o que sou hoje!

2. Depois do Vila Real e Pombal chegou aos Açores para vestir a camisola do Operário. Qual foi a sua impressão geral da ilha, tendo em conta o aspeto desportivo e social?

  Antes de chegar à ilha eu fiz um  apanhado sobre os Açores... desde falar com ex-atletas que já lá tinham estado e mesmo para saber o historial do clube. Tudo foi positivo: clube muito sério, pagador e com bons jogadores para a divisão, um treinador que tinha vindo do Santa Clara e que teve uma excelente carreira como jogador. Tudo isso me entusiasmou. E à minha chegada lembro-me de sentir a  humidade que fazia mal sai do avião e de me ter impressionado! Era um clima muito diferente do que já havia experienciado e a minha impressão da ilha foi mesmo muito boa... tudo verdinho, parecia que as estradas ficavam no meio de jardins! Paisagens maravilhosas retiradas de quadros, a comida tanto carne como peixe e mariscadas! Divinal, e o ananás... nunca comi ananás tão bom como nos Açores! Povo tão hospitaleiro e amigo pronto para ajudar e as pessoas conheciam-nos penso que mesmo antes de chegar à ilha. A imprensa muito activa sobre o desporto da região... entrevistas tanto para a rádio como para a televisão mal chegamos ao aeroporto. Profissionalismo do clube acima da média para a divisão que estávamos. A exigência, ambição e qualidade do treinador, a forma como o presidente e sua família nos acolhe como se fossemos da sua família... não nos faltava nada para sermos profissionais de futebol e realizar uma excelente época, o que se veio a confirmar! [em cima: fotografia do arquivo pessoal de Jorge Rodrigues aquando da sua chegada aos Açores, 2005]

3. Foi totalista na sua segunda época como jogador do Operário. Já entrosado na ilha, tal como referiu fora da entrevista, considerou estar a viver o melhor momento da sua carreira?

  O meu segundo ano até à altura foi sem dúvida o melhor momento da minha carreira pois já estava entrosado na ilha e no clube que me fez sentir parte da sua família e que sentia orgulho em mim como um dos seus guerreiros que estava a honrar e a defender o nome da Lagoa e claro dos Açores fora de portas, assim como fazer a melhor classificação do clube até aquela altura se não estou em erro! Isso fez-me crescer como jogador e fazer a melhor época a nível pessoal também, o que fez muitos clubes portugueses e estrangeiros colocar os olhos em mim.
                                                            
4. Mister Agatão, um homem sábio e carismático. Que palavras pode usar para caracterizar o seu treinador nos Açores?
                                                    
  O mister Agatão sem dúvidas foi um treinador que me marcou muito pela positiva. Fez-me evoluir muito como jogador e, claro, como homem. A sua forma exigente e profissional de trabalhar, a sua parte humana e sensível referente a nos próprios como homens e olhar para a equipa como um grupo e não para o individual fez com que cada um desse o seu melhor e acaba então o individual por se levantar fazendo de jogadores ate então na altura anónimos saltarem para ribalta do futebol e elevarem o nome do Operário, Lagoa e Açores. A minha admiração, respeito e amizade pelo mister Agatão que tanto deu a mim  e deu ao Operário! Um grande abraço para ele.
                                               
 5. Após essa excelente experiência, como teve oportunidade de referir, seguiu-se a Eslovénia. Curioso que no ND Gorica encontrou Hidetoshi Wakui, japonês que viria a ser seu colega 3 anos depois no Nomme Kalju. Pergunto-lhe primeiro se tinha conhecimento dessa pequena curiosidade e, segundo, como foi o entrosamento ao leste europeu.
                                                      
  Após esses 3 anos chegou o momento para abraçar novo projecto... ou então acho que nunca teria deixado os açores! Na Eslovénia conheci o Toshi, éramos ambos estrangeiros e assinamos na mesma altura e desde logo ficamos amigos, pois ele falava português com pronuncia brasileira já que ele esteve 3 anos no Brasil na sua formação. Passados 3 anos cheguei à Estónia, ao Nömme Kalju, pela sua mão... mas já lá vamos a esse tópico.
                                                           
  A minha adaptação foi um pouco difícil embora tenha tido muito sucesso a nível desportivo. Fui para o clube pela mão do treinador, mas [o clube] estava em mudança de direcção e as pessoas mais velhas do clube não olhavam com bons olhos para o treinador e claro para nós estrangeiros: por mais golos e vitórias que fizéssemos nunca era suficiente. Fiz 3 golos em 13 jogos, era um dos melhores da liga, eleito para a equipa da semana algumas vezes e ficamos em 2º lugar nesse ano. Porém, não era feliz no clube embora fizesse tantos amigos que duram até hoje. E como tinha outras propostas resolvi, como português que sou, procurar uma aventura.
                                                                                             
6. Regressado da Eslovénia rumou ao Boavista, histórico clube português. Uma época difícil ou um regresso positivo ao seu país de origem?

  O regresso ao Boavista foi um sonho que sempre tive. Sempre fui simpatizante do Boavista... desde pequenino! Primeiro pelas camisolas diferentes e depois da raça com que jogavam: jogadores que davam tudo e tinham grupos fantásticos! Claro que gostava de ter regressado ao Boavista quando estava na sua máxima força, no Boavistão que ganhou o campeonato 2000-2001, mas a proposta chegou naquele ano em 2009. Tinha outras propostas mas escolhi o Boavista com muito orgulho de vestir aquela camisola... aquele estádio... história... os fãs que vivem o clube de forma apaixonante... tudo falou mais alto!
  
  Mas sim uma época difícil pois no final tive uma lesão que me tirou 4 meses dos relvados devido às dificuldades financeiras que o clube atravessava, embora todos termos a esperança de algo pudesse mudar, a dita justiça para o Boavista! Mas só chegou agora, 4 anos depois de deixar o clube. Fizemos uma campanha sofrida mas conseguimos o objetivo que era a manutenção. No seu todo penso que nas dificuldades é de onde retiramos as melhores experiências e foi orgulho vestir a camisola desse histórico português, e fico feliz pela justiça ter sido feita para se erguerem com a dignidade merecida!
                                                                                              
 7. Depois de duas épocas em Portugal chegou aquele que considero ser uma das decisões mais marcantes da sua carreira. Rumou à Estónia para vestir a camisola do Nömme Kalju, um emblema desconhecido para os portugueses em geral. Que tal a adaptação a uma cultura que teoricamente seria desconhecida para si?
                                                                    
  Após o Boavista tive uma aliciante proposta do CD Tondela com objectivo de subida e como queria algo mais que só a 2ªB a ideia de jogar na 2ª Liga fez-me abraçar este projecto... excelente qualidade no grupo de trabalho, estrutura directiva ambiciosa e  equilibrada onde também nada me faltou, e claro as pessoas da cidade foram muito acolhedoras e mais uma vez fiz muitos amigos. Mas apesar de termos feito uma campanha muito boa quase até o final, não conseguimos a subida e essa desilusão, além de ter as portas fechadas em Portugal, para outros voos, fez com que tivesse que me direccionar para o estrangeiro onde as portas sempre tiveram abertas, pois fora do nosso país as nossas qualidades são mais apreciadas.
                                                                          
  Entre as opções que tinha, optei pelo Nömme Kalju da Estónia. E a razão foi simples: tinha o meu ex-colega da Eslovénia Wakui Hideatoshi [já referenciado nesta entrevista] a jogar no NK já há meio ano. Não conhecia nada do país e do futebol, até cheguei a perguntar "mas isso aí não é sempre neve?" e eles têm futebol para se ver qual era a minha ignorância sobre o país. Mas claro ele iluminou-me e claro, aventureiro que sou, não tinha nada a perder e vim. Cheguei no final de julho, pleno verão, e estavam 33 graus o que me espantou (afinal não é só neve) e fui logo bem recebido pelos colegas. O presidente Kuno Tehva que é  um dos pilares responsáveis pelo grande sucesso do clube, o treinador adjunto brasileiro que já tinha jogado em Portugal (Getúlio Fredo) ajudou-me bastante na integração. Todos estes factores foram os que me fizeram aceitar  e ficar por cá. O clube queria 2 anos, mas eu quis a  principio assinar por 4 meses só para ver se me adaptava. E foram 4 fantásticos meses... acabamos por conseguir o 2º lugar que seria até essa altura a melhor classificação de sempre. Fui muito bem aceite no país e apreciado pelas minhas qualidade no futebol e fora dele o que me fez renovar para a época a seguir. 
                                                      
  8. Foi campeão da Estónia em 2012, justificando assim de certa forma a sua permanência no clube. No dia 23 de julho foi opção e entrou no jogo frente ao Helsínquia a contar para a 2ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões. É uma pressão acrescida jogar para uma competição tão prestigiada?
                                 
  Nesse ano a seguir fiz 2 em 1... fui campeão Estónio e a qualificação para a 2ª eliminatória da Liga dos Campeões na época a seguir pois convém referir que o nosso campeonato começa em março e acaba em novembro, então se conseguimos um lugar europeu só o jogamos na época a seguir e nunca na presente época. Foi o momento mais alto da minha carreira ate então ser campeão pela primeira vez para a minha historia e na historia do clube. Claro foi razão mais que suficiente para assinar por mais duas épocas e criar tão fortes raízes com o clube. Mas convém dizer que nesse ano também joguei as eliminatórias da Liga Europa . e perdemos contra o Kazar de Lankaran do Azerbaijão num jogo a duas mãos: empatamos 2-2 e perdemos em casa 0-2.
                        
  Foi a minha primeira experiência nas competições europeias, mas ter jogado os dois jogos  deu-me outra experiência para me enriquecer como jogador. No ano a seguir, 2013, dedicamos maior parte da atenção ás pré-eliminatórias da Champions e por isso ficamos em 2º no nosso campeonato, mas lá  vencemos aqui aos nossos vizinhos dos bálticos do HJK, campeão finlandês ao qual fui opção e pude realizar o sonho de jogar na Liga dos Campeões, como o realizar de mais um sonho e consagração pessoal. Perdendo na 3ª eliminatória contra o Plzen, caímos para o play-off da Liga Europa para jogar com o Dnipro da Ucrânia, recheado de estrelas e jogadores com contractos milionários e onde milita o nosso português Bruno Gama e o conhecido Matheus [ex-Sporting de Braga que marcou um golo fantástico ao Arsenal no AXA]. Perdemos o 1º jogo por 3-1 de forma injusta pois só o nosso golo foi legal, mas em casa deles perdemos 2-0 muito bem pois jogaram melhor e mereceram a vitoria. Joguei ambos os jogos 90 minutos a um excelente nível o que me orgulha vendo o meu percurso passado em medias divisões e mesmo assim poder estar a este nível nestas competições, o que me faz pensar que no meu caso podem estar muitos outros que não são apreciados no nosso país enquanto damos oportunidades a valores de outros países.
                                   
9. Como é de forma muito geral a sua relação com os seus colegas no Nomme Kalju? Apesar de ter jogadores brasileiros no plantel acredita que a barreira da linguagem traz ou pode eventualmente trazer obstáculos?
                                               
  A minha relação com os meus colegas é espectacular, temos um grupo muito bom. No inicio não foi bem assim pois o povo estónio é muito fechado enquanto eu sou muito falador e aberto, e isso poderia ter sido uma barreira se eu desistisse logo à primeira. Com o tempo eles começaram a aceitar-me como sou e apreciar a minha forma de ser e imitar nas brincadeiras e palavrões... a língua estónia é muito difícil, mas no país atrevo-me a dizer que quase toda gente fala inglês, então é fácil a comunicação. Eu falo francês, espanhol, italiano e ingles, então digamos que posso ser o elo de ligação entre todos... pois temos jogadores italianos e franceses. Por isso a língua não é obstáculo.
                            
10. O Jorge é uma pessoa bastante ativa nas redes sociais, nomeadamente no Facebook. Considera que esse tipo de sítios na internet têm uma importância acrescida na promoção do futebol?
                                    
Sim é verdade, sou muito activo no facebook, mais propriamente na minha página pessoal pois ao tempo que estou cá a jogar ao alto nível tenho dado bastantes entrevistas para os diversos meios comunicativos tanto em Portugal como na Estónia, reclames televisivos ou mesmo sessões fotográficas. Tenho tido sucesso e é a forma de poder dar essa visibilidade a todos os apoiantes e interessados em acompanhar. E claro, uma  forma também de poder apresentar à nossa comunidade portuguesa o futebol estónio e de certa forma a Estónia pelos meus olhos. Servindo de certa forma como um português embaixador pela Estónia, e com o tempo tentar colocar o meu clube e o país no mapa de muitos portugueses.
                                             
11. Como é o Jorge fora dos relvados e fora do futebol?
                                     
Fora dos relvados sou quase o mesmo... procuro ser sempre uma pessoa sociável e disponível para ajudar, sou aberto e bastante amigo. Adoro visitar as escolas de formação do Kalju, ajudando na motivação e treino para a sua evolução. Gosto muito de cinema e de cozinhar a nossa comidinha portuguesa e claro sou sempre  muito ligado à família, em especial à minha querida mãe que se não é por Skype é por telemóvel e estamos sempre em contacto. Só procuro a minha vida pessoal ser mais privada, como o meu canto de recarregar baterias.
                                                        
12. Por fim tenho de lhe fazer uma pergunta quase inevitável. Em março de 2014 o seu colega Hidetoshi Wakui tornou-se quase mundialmente famoso após a badalada celebração a imitar um jogo de bowling. Qual foi a sua primeira reação ao ver o gesto criativo do seu colega?
                                             
  Fiquei muito feliz pelo golo e claro pela celebração visto que eu e o presidente Kuno Tehva termos sido os mentores desta ideia de fazer uma celebração para entreter os nossos fãs e cativar novos adeptos para visitarem os nossos jogos pois é uma das grandes lutas cativar os estónios a um estádio de futebol, eles preferem ver em casa na TV! Então após ter falado com o meu presidente juntei o grupo, falei e incentivei  todos e começaram a lançar ideias e o bowling humano foi o escolhido. E claro o Toshi, dos meus melhores amigos, não me deixou ficar mal! Depois desse já fizemos o samurai que também ficou excelente com making of dentro do balneario, vídeo que coloquei na minha pagina pessoal. E, claro, novas ideias estão para vir!
                                             
Perguntas rápidas:
                                 
Jogador favorito:
Ronaldo, Figo, João Vieira Pinto e Quaresma.
Treinador favorito:
José Mourinho.
Melhor jogador que já enfrentou:
Konoplyanka.
Melhor recordação no futebol: Jogar a Liga dos Campeões e ser campeão estónio.
Melhor exibição da sua carreira: Jogo contra Dnipro, playoff da Liga Europa.
Uma qualidade:
Positivo.
Um defeito: Cada vez mais refilão (diz a minha mãe).
Vencedor do Mundial: Portugal, estou contigo até ao fim!

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  Numa altura em que o Mundial se aproxima e a Crónica Futebolística está a trabalhar arduamente para cobrir a maior competição de seleções do mundo, surgiu a oportunidade dum novo espaço que, se tudo correr dentro dos conformes, se manterá de forma regular. Desta forma pedi a opinião de Daniel Pinho, um dos mais assíduos adeptos da página e do blog e ao qual agradeço o tempo, sobre este projeto. Os próximos alvos, digamos assim, desta coluna serão contactados brevemente ainda antes do Mundial. As questões abaixo.


1. Como descobriste a Crónica Futebolística?

  Através do fórum Contra-Ataque.

2. O que achas, de forma geral, da página do facebook? 

  Está muito bem estruturada, simples e informativa. A parte gráfica também está muito boa. Na verdade, não encontro mais nenhuma página no Facebook que concilie a parte gráfica e escrita tão bem.  

2.1 O que te cativa mais na mesma? A informação prestada. 2.2 O que achas que a diferencia (se algo) das restantes páginas? Sem qualquer dúvida, a combinação da parte gráfica com a escrita. 

3. Tens alguma opinião sobre os artigos do blog?

Infelizmente já não consulto o blog há algum tempo. No entanto gostei muito do artigo sobre o Bruno Lopes. Foi muito bem conseguido. 

4. Mudarias algo na página/blog?

Neste momento não. Estão bem como estão.

5. Por fim, uma reflexão ou palavras sucintas sobre o projeto que queiras transmitir. 

Gostaria de te pedir para nunca desistires do teu blog e continuares a fazer mais artigos e entrevistas. Quem te acompanha agradecerá e de certeza que atrairá mais pessoas para a tua página e blog. Boa sorte com tudo no futuro. 

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  Hoje perdeu-se mais uma vida, neste caso a do jovem australiano Dylan Tombides. O avançado australiano do West Ham era dado como uma jovem promessa do futebol do seu país de origem, mas infelizmente o seu valor não pôde ser confirmado na sua totalidade devido à batalha extra que teve de travar durante três anos e que acabou por lhe tirar a vida: um cruel cancro testicular. E foi com essa nova realidade que Tombides encarou a sua vida, pontapeando o cancro em 2012. Para sua e de seus amigos e familiares, não de forma definitiva. Uma verdadeira tragédia que acontece, de forma curiosa mas obviamente triste, poucos dias depois do segundo aniversário da morte de outro jogador: Piermario Morosini. Se bem que em circunstâncias diferentes a tristeza acaba por ser a mesma.

  Para Dylan Tombides, assim como para todos nós, a saúde era o que mais importava. Mas para este jovem, assim como outros futebolistas que ambicionam ser mais e melhores, tudo era futebol. Tudo o que fazia relacionava-se diretamente com o desporto rei. Travava uma batalha diária para ser melhor, mas de forma brusca teve que se ambientar a enfrentar outra dura batalha: o cancro. Aquela que diria eu ser uma notícia quase impossível¹ de entregar a alguém foi lhe entregue por um médico australiano que o contactou durante a sua estadia em Cancún, uma cidades anfitriãs do Mundial sub-17 de 2011. Foi nessa competição que mais prometeu, marcando o golo da sua carreira frente à Costa de Marfim num tento repleto de categoria. O jovem, na altura com os seus 17 anos, foi titular em todos os jogos dos Socceroos na competição até à eliminação por 4-0 aos pés do modesto Uzbequistão.

  ¹ o cancro testicular de Dylan Tombides foi diagnosticado de forma aleatório na sequência dum controlo anti-doping realizado a alguns jogadores australianos após a derrota acima referida frente ao Uzbequistão.

  Há momentos que definem carreiras e legados, palavras frequentemente utilizadas na gíria do futebol. E, por mais cruel tenham sido os últimos anos da vida do jovem Socceroo, o golo referido será sempre um aspeto positivo. Nessa altura já representava os Hammers, clube em que alinhava nos escalões de formação, segundo os registos disponíveis, desde os 15 anos. E acabaria por fechar lá a sua carreira cinco anos depois em circunstâncias obviamente indesejáveis. Há alguns aspetos a refletir.

    1. O CHOQUE: É difícil para qualquer pessoa, por muito mais frias que possam ser, receber uma má notícia. Para que não chegasse, e neste caso particular, Dylan Tombides era um jovem de 17 anos a viver um sonho. Ainda menor de idade o duelo travado com as suas emoções foi, na teoria, ainda maior. A gestão das mesmas poderia ser instável, complicado e frustrante. O contraste de realidades foi, aos olhos do próprio, avassalador. Num dia faz-se o golo duma carreira, noutro luta-se pela vida.

    2. RECUPERAÇÃO E ANSIEDADE: "Pai, isto pode matar-me?" foi uma das declarações mais marcantes do jovem reveladas pelo próprio numa entrevista após a sua recuperação, dez meses depois de derrotar o cancro testicular. O jogador referiu que, ao não ser perfeitamente instruído sobre o cancro e as implicações na sua vida, não pensou devidamente no assunto e nas consequências que isso poderia trazer. Na mesma entrevista refletiu que após a primeira sessão de tratamento pensou que depois de poucos meses iria voltar aos relvados.
  
    3. ENCARAR A REALIDADE: De forma natural o australiano acabou por aceitar e perceber o que realmente o assombrava. Oito meses após começar o tratamento, revelou o próprio, consciencializou-se do que realmente lhe acontecera. Não compreendendo a severidade do seu problema num primeiro período, foi ao frequentar o tratamento e enfrentando a sua condição que se mentalizou, de forma madura, da sua severidade. E o choque, naturalmente, foi grande. Mas o alívio de pontapear o cancro também.

    4. REGRESSO TRIUNFANTE: O maior desejo do jovem avançado era voltar à competição e isso acabou por acontecer, após vencer o cancro em 2012. Foi nesse ano que se iria estrear gloriosamente pelo West Ham, a 25 de setembro com apenas 18 anos. Em 2014 acabou por representar a Austrália no campeonato de sub-22 da AFC (federação asiática de futebol que alberga também a Austrália, como já acontece à alguns anos) no mês de janeiro, tornando-se uma mais valia para o grupo de trabalho.

   5. O JOGADOR: Versátil, criativo, móvel e forte. Eram estas algumas das principais características do futebol de Dylan Tombedis, um avançado que fazia constantes recuos no terreno e pegava na batuta quando era requerido para tal função. Noutra nota convém também referir que o jogador perdeu peso durante a sua recuperação, algo perfeitamente natural mas que o próprio tentou remediar aquando do seu regresso à competição em 2012. O seu foco principal foi recuperar os quilos de massa muscular, viabilizando o seu jogo aéreo ou força nas disputas de bola.

  Reforço a ideia de que é terrível perder mais um elemento da comunidade futebolística, ainda para mais nestas condições. O futuro aparentava ser de grande valor para este jovem australiano que ia aos poucos gravando o seu estilo no mundo de futebol. Será outro nome que ainda assim nunca será esquecido pela sua coragem e pelo seu carácter. Descansa em paz, Dylan James Tombides. 1994 - 2014.

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  Ganhou notoriedade na primeira metade da época 2013/2014 e aparece agora como jogador do Valência Club de Fútbol. O defesa-central português Ruben Vezo pegou de estaca na equipa do Vitória FC na presente época e desde aí que vinha sendo seguido por outros clubes, entre os quais se destacou a formação ché que agora representa. E sobre a sua formação há pouco que se possa contar. Ruben manteve-se fiel ao Vitória, clube da cidade onde nasceu. Começou a jogar à bola com a tenra idade de 6 anos e tem como referência defensiva o brasileiro Thiago Silva. Humilde e esforçado, o setubalense sonha um dia vencer a Liga dos Campeões.

  Antes de dar início à entrevista gostaria de agradecer publicamente a Ruben Vezo que mostrou imensa disponibilidade e humildade durante todo este processo que levou à entrevista. A ele um muitíssimo obrigado. Sucesso para a sua grande carreira. Votos de Luís Barreira, fundador da Crónica Futebolística.



1. Começou a sua carreira como futebolista aos 6 anos. Sentiu que nessa altura podia alcançar o seu atual patamar?

  Comecei a jogar com 6 anos. Jogava muito à bola em casa, então a minha mãe decidiu meter-me no futebol apenas por divertimento e por distração, nunca imaginando ela que fosse essa a profissão que eu viria a seguir. Eu com 6 anos como é claro não tinha noção das coisas, apenas gostava de jogar futebol e dizia que queria ser jogador, mas era o sonho típico de um menino de 6 anos. Nunca com essa idade me passou pela cabeça chegar onde estou hoje.

2. É notório que deu nas vistas, sendo promovido com 16/17 anos ao plantel sénior do Vitória. Como encarou essa oportunidade?

  Encarei essa oportunidade com muita força e determinação, sendo uma oportunidade única tinha que a aproveitar, porque sendo promovido ao plantel sénior tive que deixar a escola porque não dava para conciliar as duas coisas. Nunca tive dúvidas de qual era a minha escolha, era sem dúvida o futebol e aproveitar esta oportunidade. Mas foi uma decisão difícil de explicar à minha mãe e de ela perceber que era uma oportunidade única para dar continuidade ao meu sonho, custou, mas com o passar do tempo ela foi aceitando a decisão.

3. Sejamos sinceros: no início da época 2013/2014, Rúben Vezo era um nome desconhecido para muitos. Alguns meses depois era o nome que estava na boca de muitos seguidores do futebol português. Como encara essa sua evolução meteórica?

  Sim, no início da época é certo que ninguém me conhecia, era um "menino" vindo dos juniores e desconhecido para a maior parte das pessoas. Mas a época felizmente começou a correr bem e fico feliz por agora estar, pela positiva, na boca de muitos seguidores do futebol português como você disse, é sinal que o trabalho que estou a desenvolver está a ser bom e agora é dar continuidade porque ainda há muito caminho a percorrer.

4. Muitas vezes o jogador português critica a falta de oportunidades que as equipas portuguesas oferecem aos seus atletas quando estão para ingressar nos plantéis principais. Tendo essa oportunidade no Vitória, quão grato se considera para com o clube?

  Muitos jogadores reclamam oportunidades e muitos treinadores se calhar têm medo de as dar, ainda para mais na minha posição de defesa central que é uma posição digamos que arriscada porque é muito mais fácil apostar num jovem avançado do que num jovem defesa, porque se o avançado falhar tem uma equipa inteira atrás dele, agora se um defesa falhar tem somente o guarda-redes atrás dele, mas felizmente não passei por essa situação, trabalhei muito para merecer a confiança do mister José Mota.
 
  Por exemplo, 20 dias antes do dia de me apresentar no Vitória para o arranque da pré-temporada comecei a treinar com um preparador físico e amigo que se chama Ventura, ele trabalhou-me fisicamente com treinos muito duros para chegar a altura da pré-época e eu estar melhor fisicamente que os outros e foi isso que aconteceu. 

  Eu abdiquei das minhas férias, coisa do qual não estou arrependido, e cheguei aos treinos de pre época e estava melhor fisicamente que os outros e sobressaia-me nos treinos, acho que essa foi a chave para o meu "sucesso" neste começo de carreira profissional.
E como é claro estou extremamente agradecido a estas pessoas que me ajudaram e pela oportunidade e depósito de confiança que o mister Mota me deu.

5. Não demorou muito até dar nas vistas e ser referenciado como reforço de clubes mais sonantes. Como encarou essas associações?

  É claro que ficava contente e satisfeito com essas associações, mas tentava encará-las com alguma indiferença, estava focado no Vitória e em ajudar o clube a atingir os seus objetivos e não me queria desconcentrar com outras coisas.

6. Chegou o Valência, uma nova etapa na sua vida. Considera ser um sonho tornado realidade?

  Sim, é sem dúvida um sonho tornado realidade jogar na melhor liga do mundo, num dos grandes de Espanha e num clube referência a nível mundial, jogar contra jogadores de classe mundial que antigamente só via pela televisão e hoje posso defrontá-los, é muito satisfatório.

7. Uma mudança pode ser sempre incómoda. Novas caras e novo ambiente. Sente que teve uma boa base de apoio quando chegou a Espanha?

  Quando é que uma mudança é incómoda quando estamos a concretizar o nosso sonho? Penso que nunca. Tenho uma boa base de apoio porque trouxe comigo a minha mãe e a minha irmã, elas que são a minha base e vão ser fundamentais no apoio e equilíbrio emocional quando as coisas possam estar a correr menos bem.

8. Considera que terá uma adaptação rápida e eficaz ao futebol espanhol? Os jogadores portugueses no clube ajudaram o Rúben neste novo período?

  Sim, penso que adaptação está a ser rápida e boa, os meus colegas portugueses bem como toda a equipa receberam-me muito bem, estavam constantemente a dar palavras de incentivo e deixaram-me logo à vontade, diziam para não ter medo de falar e para falar à vontade nos treinos, dar indicações e essas coisas porque era mais um que lá estava para ajudar. E estou a adaptar-me bem ao ritmo, aos novos métodos de jogo e de trabalho e de dia para dia sinto-me muito melhor.

9. Veio do Vitória para o Valência, tendo possibilidade de disputar as competições europeias além de poder ter a função de marcar diretamente jogadores como Ronaldo e Messi. Como encara essa oportunidade? Pressiona-o duma forma positiva?

  Encaro essa oportunidade com muita naturalidade, é um sonho poder jogar essas competições europeias e o facto de jogar em grandes estádios, com ambientes fantásticos, contra jogadores como Ronaldo e Messi, mas não vejo essa oportunidade como pressão e sim de grande motivação por poder jogar nestas condições que disse. 

10. Costuma-se dizer que o céu é o limite. Quais são os seus objetivos/ambições para esta e as seguintes épocas?

  Os meus objectivos para esta época e para as outras épocas passam por trabalhar muito, sempre no limite, para poder continuar a aprender, continuar a evoluir e jogar nesta equipa para dar o meu contributo ao Valência, ajudando a atingir os objectivos estipulados no inicio da época pelo clube e pela equipa.

11. Respostas relâmpago: Jogador favorito? Treinador favorito? Uma qualidade? Um defeito? Um objetivo na sua carreira?

  Thiago Silva, José Mourinho, uma qualidade: sou amigo do meu amigo e tento sempre que os meus estejam bem, um defeito: por vezes enervo-me com alguma facilidade e acabo por dizer coisas que não quero dizer às pessoas que menos devo dizer. E tenho como objectivo um dia ganhar uma Liga dos Campeões e estar no lote dos melhores defesas do mundo.

12. Por fim, se desejar, deixe uma breve mensagem aos seus fãs e aqueles que o apoiam de diversas formas.  

  Queria agradecer a todos que me ajudaram, que me acompanharam e acompanham, que torcem por mim, que deixam mensagens de apoio e incentivo, estou-vos muito agradecido e deixo aqui desde já o meu grande OBRIGADO. Beijinhos e abraços.

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  Há golos que no futebol fazem toda a diferença. Hoje foi dia de Bruno da Silva Lopes experienciar isso mesmo. O avançado do Estoril teve, porventura, a maior fortuna da sua carreira: marcou 4 golos no estádio do Mar perante o Leixões num jogo a contar para a Taça de Portugal. O seu nome tornou-se nesse instante um dos temas mais quentes do futebol português. O brasileiro de 27 anos chegou esta temporada ao clube canarinho e pouco se sabe sobre o seu passado porque este, durante as últimas duas épocas e meia, teve como espaço físico um outro lado do globo. O desconhecido Albirex Niigata foi o clube que contratou Bruno Lopes em 2010 quando este ainda andava por clubes brasileiros. Clube japonês fundado em 1955 que tem no seu currículo como troféu mais sonante uma segunda divisão japonesa. Clube modesto, mas que habita num estádio sensacional.

  O pistoleiro de Niigata¹, como era conhecido pela afición japonesa, pegou destaque na equipa na sua primeira época. Marcou 13 golos na edição de 2011 da J-League, sensivelmente um terço dos tentos da sua formação. É um registo, obviamente, invejável. Confirmou todas as dúvidas existentes nos dirigentes japonesas se ainda as houvesse. Bruno tornou-se um jogador ainda mais completo e virou herói sul-americano em terras asiáticas devido à sua versatilidade e imprevisibilidade. É regra no futebol que um avançado, diria eu, letal, não pode ter brindes. Não pode ter espaço e margem de manobra. Pois bem, Bruno Lopes castigava quem não o fizesse. A prova disso são os golos de meia distância e, uma novidade, os seus golos de cabeça. Porque coincidência ou não a verdade é que o brasileiro desenvolveu imensamente o seu jogo aéreo devido ao facto de nem sempre ter o espaço que tinha no Brasil onde o futebol é mais aberto e propício às jogadas individuais.

  ¹ Bruno Lopes tinha uma excelente relação com os adeptos dos Albi. Um dos seus festejos mais comuns era o de pistoleiro onde fazia das mãos autênticas armas de destruição. E isso fazia dele, bem, um matador. Algo que lhe fazia jus tendo em conta o número e qualidade de golos que foi marcando. Ficou então batizado.

  Um jogador que deve muito a dois elementos que o caracterizam como futebolista: a sua capacidade decisiva de suceder no 1vs1 e, sobretudo, a sua enorme facilidade em mudar de velocidade e colocar-se numa posição favorável para marcar ou assistir. Os brasileiros souberam-no desde cedo: Bruno teve oportunidade de representar 6 clubes como sénior no Brasil. O último foi o Vila Nova e foi curiosamente nesse emblema que teve oportunidade de pôr em prática aquilo que sabia e a arte que dominava. 3 anos depois os japoneses estavam também convencidos. Eis que chegou a notícia do empréstimo ao Estoril.  

Desconhecido para o público português, em geral, Bruno Lopes chegou por empréstimo do Niigata, clube pelo qual 20 golos na principal competição japonesa de clubes, a J-League. Chegou com rótulo de goleador. Ou pelo menos deveria ter chegado. Talvez mais do que isso Bruno seja um desequilibrador. Utiliza as suas frequentes e alucinantes mudanças de velocidade para colocar as defesas adversárias em sentido, além de possuir uma visão de jogo que lhe permite ser e ter movimentos ofensivos duma inteligência acima da média, algo que nem todos se dão ao luxo de possuir.
  A primeira - ou, de resto, a mais sonante - prova da inteligência ou matreirice do pistoleiro foi o golo de calcanhar frente ao Paços de Ferreira. Uma movimentação de grande qualidade foi recompensada com um golpe acrobático que valeu ao brasileiro o crédito por marcar aquele que foi seguramente um dos melhores golos do ano em Portugal. Titular por apenas uma vez, Bruno Lopes procura ainda o seu lugar cativo no XI de Marco Silva. Não é um jogador que se destaque pela força e por isso teve que viver um choque entre a exigência física do futebol português em comparação com a experiência nipónica.

  Fora de campo o antigo avançado do Albirex Niigata é casado e pai duma filha, sendo esses dois dos grandes amores da sua vida. Nasceu em Curitiba e vive agora em Cascais, na constante esperança de dias alegres como o de 4 de janeiro. Porque este fora, provavelmente, um dos melhores dias da sua carreira. O mesmo caracteriza-se como uma pessoa alegre, comunicativa e guerreira. Todos estes adjetivos mais ou menos visíveis em campo, sobretudo o último. E alegria por jogar na Europa, um sonho que Bruno Lopes confessou ter nas redes sociais. Poderia acrescentar que este brasileiro é extremamente modesto e simples: é religioso e uma pessoa muitíssimo grata. Teve oportunidade de referir que levava o Albirex Niigata no coração, uma equipa que mudou a sua vida dentro e fora dem campo.

  O brasileiro está, tal como outros sul-americanos que rumam ao futebol asiático, condenado ao sucesso no Japão. A sua estadia em Portugal ainda não é de todo conclusiva. A segunda metade da temporada será fundamental para a avaliação do trajeto do avançado de 27 anos. Uma coisa é certa: a Taça de Portugal acaba de lhe dar uma oportunidade para agarrar a titularidade. A partida de Luís Leal para a Arábia Saudita abre também portas que todavia ainda não teriam sido abertas. A continuidade no futebol português é incerta e improvável: Bruno ainda tem contrato com o clube japonês. Cabe agora a Marco Silva refletir sobre o momento do brasileiro pois a titularidade pode ser benéfica para ambas as partes. Sem dar por isso Bruno Lopes pode vir a tornar-se fundamental para a manobra ofensiva duma formação canarinha que ficou órfã da sua referência de ataque.