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     Uma nova temporada traz, quase inevitavelmente, surpresas. E essas mesmas podem surgir de diferentes maneiras: uma contratação surpresa, um campeão que desilude de forma inesperada ou uma equipa que não vai correspondendo às expectativas que lhe eram atribuídas. Sendo o início de temporada no futebol europeu um período sempre agitado - mais do que o costume - pelo facto das equipas ainda não terem os plantéis fechados, não terem todos os atletas ao seu dispor ou simplesmente por entrarem nas competições com o pé esquerdo, há, no reverso da medalha, um grupo de equipas que pode surpreender ao longo da temporada e mostrar uma consistência ou brilho que poucos achariam, deveras, possível de prever. 

     Nesta lista - cuja ordem é completamente aleatória - de 10 equipas a Crónica Futebolística reuniu dados essenciais para o estudo das equipas (desde a sua postura no defeso à sua ideologia tática) e juntou, abaixo, uma compilação das 10 equipas a nível europeu a ter em conta na época que há pouco arrancou.

     Esta peça reflete a opinião e visão de Luís Barreira, administrador do projeto.
Devido à longa extensão do artigo, cada parte terá o perfil de 2 equipas*, totalizando 5 partes.

*sendo a única portuguesa presente no artigo, esta parte será unicamente dedicada ao Vitória SC.

Esta é a segunda parte do artigo. Consulte a primeira parte, com perfil de Swansea e Twente.




VITÓRIA SC

A eliminação precoce dos vimaranenses face ao Altach na 3ª pré-eliminatória de acesso à Liga Europa deu o mote para aquela que seria uma época para esquecer. Mais do que as derrotas, as exibições pobres da formação de Armando Evangelista nesse par de partidas deram indicações pouco favoráveis - com a exceção de algumas notas positivas de cariz individual - para o início do campeonato e das competições internas. As previsões estavam assim corretas, com os vitorianos a realizarem uma entrada no campeonato muito aquém do que é tradição para o emblema da cidade berço, com apenas uma vitória numa mão cheia de jogos. E se é verdade que Armando Evangelista não convenceu no comando técnico da equipa portuguesa, Sérgio Conceição não faria jus à caminhada de Rui Vitória na temporada 2014/2015. Depois de um período de integração com resultados pouco positivos, as expectativas das gentes de Guimarães foram elevadas de forma substancial, fruto do registo positivo que viu a equipa vencer por 7 ocasiões em 12 jogos, perdendo por apenas 3 vezes entre a jornada 9 e 20. Depois esse triunfo sobre o Vitória FC, nessa mesma jornada 20, os comandados de Sérgio Conceição ocupavam um lugar europeu na 5ª posição. A partir daí, uma queda vertiginosa. E se a equipa vitoriana perdeu por apenas 3 ocasiões numa caminhada de 12 jornadas, ganharia apenas uma nas últimas 14, onde somaria um péssimo registo de 7 empates e 6 derrotas, onde a única vitória surgiu no último embate caseiro, com uma goleada frente ao rival Moreirense.

     Esse triunfo a fechar os jogos caseiros da época o Vitória não iria iludir porém os adeptos, cuja desilusão era visível tendo em conta os maus resultados adquiridos com Armando Evangelista primeiro e, apesar de um bom período, com Sérgio Conceição. Numa equipa com tamanha tradição como o Vitória SC, era mandatário corrigir os problemas e formar uma base coesa não só para a próxima época, mas como também construir os alicerces para um projeto de sucesso para uma massa associativa que, pelo apoio constante, merecia melhor.

PORQUE É QUE O VITÓRIA SC PODE SURPREENDER EM 2016/2017?

     Deixando para trás uma época de más recordações, os vitorianos iniciaram da melhor forma o seu percurso ainda sem jogar, contratando Pedro Martins para o lugar de Sérgio Conceição, um técnico com uma personalidade forte mas com óbvias fragilidades em termos de fundamentalismos táticos. A aposta no técnico de Santa Maria da Feira prometia assim não só uma personalidade forte no banco de suplente, mas o acréscimo de ter muita competência dentro de campo, taticamente falando. Há poucos treinadores em Portugal nos últimos anos, excluindo alguns dos técnicos dos 3 grandes portugueses, com o currículo de Pedro Martins, à defesa da instituição que representa à garantia de resultados. Foi assim no Marítimo e no Rio Ave onde, além de levar as respetivas formações à Liga Europa, desenvolveu ou fez ressurgir o caráter das equipas dentro de campo. Cabe a ele, no Vitória, devolver vida a um espírito fortíssimo dentro e fora de campo que, nunca morrendo, ficou certamente desiludido com a época passada.

     Contratando também fora de portas, Pedro Martins provou mais uma vez o seu conhecimento e sobretudo confiança no mercado português, reforçando a equipa com jogadores ligados ao futebol nacional. João Aurélio, Rúben Ferreira, Moussa Marega (por empréstimo) e Soares, todos titulares na vitória expressiva frente ao Paços de Ferreira, alinhavam no campeonato português antes da sua mudança para a cidade berço. As grandes vantagens em relação a contratar ao estrangeiro são a dos jogadores em questão conhecerem a realidade do clube e do campeonato em que alinham, sendo também mais acessível para o técnico - neste caso Pedro Martins - conhecer mais de perto as qualidades e aspetos a melhorar dos jogadores em questão, tendo em conta que já os defrontou no passado. Embora muitas vezes seja mais tentador contratar fora de portas, seja que por razão for - e o argumento de que "o estrangeiro é melhor" já está fora de moda por esta altura -, o campeonato português conta com grandes talentos em todas as formações. Cabe aos mais atentos reconhecê-los.

     Noutra nota, e embora não seja um jogador português ou tenha jogado no campeonato nacional na temporada passada, a inclusão de Bernard na formação vitoriana até ao final da época será extremamente valiosa: depois de ter conquistado poucos minutos no campeonato espanhol, o menino que já é um senhor jogador volta ao Norte do país para uma casa que bem conhece e representou com grande sucesso, especialmente na época passada onde explodiu no principal escalão do futebol português. Um verdadeiro todo-o-terreno no miolo, terá a companhia de mais um regressado, desta feita Hernâni que, cedido pelo FC Porto, já conhece os cantos à casa. Rápido e forte na decisão, o lisboeta é uma adição extremamente bem-vinda pelos vimaranenses para o corredor ofensivo. Os bons filhos à casa voltam e, neste caso em particular, os filhos podem ser peças importantíssimas para Pedro Martins, quer para a titularidade quer para um sistema de rotação, tendo em conta a exigência da temporada que ainda agora começou.

     E se o investimento do clube da cidade berço no mercado de transferências merece ser mencionado, a aposta na formação merece igualmente ser vincada, algo que já é apanágio do emblema nortenho. Tendo iniciado o seu percurso futebolístico no Desportivo de Ronfe, o médio João Pedro vai rapidamente traçando um caminho heróico no Vitória Sport Clube, clube que representa há uma década. Com 23 anos, o jogador natural de Guimarães representou todos os escalões de formação do clube - desde que a idade o permitisse - desde 2006, na altura com 13 anos. Sempre profissional e paciente, João Pedro esperou pela oportunidade que eventualmente ia chegar. Passou de júnior a uma das figuras mais importantes e carismáticas da equipa B dos vitorianos nos 4 anos em que representou a equipa, com esporádicas oportunidades na equipa principal. A sua grande conquista chegaria este ano, 10 depois de vestir a camisola do Vitória pela primeira vez, com Pedro Martins a confiar no jovem médio para atuar ao lado de Rafael Miranda no miolo do xadrez vitoriano. É, depois de 270 minutos oficiais, totalista. E se na época passada a Crónica Futebolística elegeu João Pedro como uma das possíveis revelações do campeonato nacional, esta, sim, será a época de afirmação do vimaranense.

     Sem grandes alterações nos 2 maiores protagonistas na baliza vimaranense, Douglas e João Miguel Silva continuam a ser o par convocado para os 3 confrontos oficiais da época até ao momento. Lançado na época passada, tendo feito 24 jogos pela formação da cidade berço, o jovem guardião português ainda não teve oportunidade para se estrear esta época, mas terá certamente oportunidade de brilhar nas taças, enquanto o brasileiro Douglas, adorado na cidade berço e com um tremendo nível de experiência, recuperou a titularidade que perdeu durante a época passada, tendo em conta o espetacular momento de forma de João Miguel Silva, correspondendo em muitos momentos em que foi chamado. Com 21 anos, a sua evolução será claramente um dos aspetos a ter em conta por Pedro Martins. Trabalhar mais uma temporada com Douglas, um líder nato com tamanha experiência, será uma dádiva para o guarda-redes de Santa Eufémia de Prazins. Mantendo a sua baliza virgem frente ao Marítimo, ainda para mais fora, é até agora o momento alta da época de Douglas no Vitória, que já representa desde 2010.

     Com os corredores laterais renovados, Pedro Martins procurou jogadores experientes no que ao futebol português diz respeito. Com 26 e 28 anos respetivamente, Rúben Ferreira e João Aurélio são jogadores que ainda têm margem de evolução na cidade berço, contando ambos com uma assistência no campeonato até agora, onde atuaram como titulares nos 3 jogos do campeonato. Ambos contratados a equipas madeirense, Rúben não conhecia outro emblema que não o Marítimo desde 2007 e João vestia a camisola do Nacional desde 2008, onde tem um ponto a favor: embora também seja eficaz no corredor defensivo - um aspeto que tem vindo a melhorar de forma consistente -, o jogador nascido em Beja tem uma tremenda facilidade em atuar numa zona mais subida no terreno, ele que se destacou como extremo direito numa fase mais precoce da carreira. Se algo correr mal nos corredores laterais, Josué Sá e Pedro Henrique serão os tapa-furos dos vitorianos, eles que até agora estiveram em bom plano pelos vitorianos apesar da derrota na jornada inaugural do campeonato. Depois de uma época de afirmação, o central brasileiro Pedro Henrique parece construir uma notável dupla de centrais com Josué, de 24 anos, que se estreou na equipa principal do Vitória em 12/13 e representa os vimaranenses desde 2009.

     Sem Cafú - totalista na Ligue 1 até agora - e com a dupla de João Pedro e Rafael Miranda já mencionada acima, é de sublinhar mais uma vez que Bernard será importantíssimo para o técnico do Vitória, a titular ou a sair do banco. Tendo todo um leque de qualidades que podem decidir uma partida - a disponibilidade física, a dedicação, a qualidade de passe e inteligência com e sem bola - o ganês regressa ao berço num momento diferente no qual rumou ao Atlético de Madrid, mas não por isso um momento menos bom. E, se brilhou sobre Rui Vitória, pode fazer o mesmo esta época. Mas podendo ocupar a posição 8, o ganês pode também entrar numa posição mais avançada, a de médio ofensivo/segundo avançado, nesta altura ocupada e muito bem pelo peruano Paolo Hurtado, regressado depois de representar o clube da cidade berço na segunda metade da temporada passada. O desejo de regressar foi demasiado forte e, negociando com o Reading de Inglaterra, os vitorianos adquiriram outro atleta com fortes raízes ao futebol português. E de grande qualidade, vale a pena referir.

     Em termos de extremos, Raphinha, na esquerda, é o extremo mais puro da equipa. Desequilibrador por natureza, o brasileiro de 20 anos tem um papel diferente de Moussa Marega, mais forte do que o brasileiro nalguns aspetos de jogo, mas mais frágeis noutros. É, dadas essas mesmas fragilidades, que Marega deriva inúmeras vezes para o centro, mais perto das áreas de finalização. O jogador do Mali cedido pelo FC Porto é possante e não tem o devido crédito no que toca a qualidade técnica, mas, não bailando tanto como Raphinha, é sobretudo um jogador que usa a sua potência para ganhar metros na sua posição e abrir espaços para os adversários. As suas derivações para o centro que lhe valeram 2 golos frente ao Paços de Ferreira são facilitadas devido à facilidade de João Aurélio em aventurar-se no flanco direito, uma qualidade já mencionada no artigo.

     Já mencionado acima quando se escreveu sobre o investimento do Vitória em jogadores com provas dadas no campeonato, falou-se em Soares. O atacante de 25 anos esteve na Madeira nas últimas duas temporadas, explodindo no Nacional em 15/16 quando marcou 14 golos em 35 partidas oficiais disputadas. Emprestado pelo Veranópolis ao emblema brasileiro, o Vitória mais uma vez antecipou-se a possíveis concorrentes na aquisição do atleta, reforçando de forma preciosa o seu ataque. Além de finalizar com facilidade, Soares oferece-se muito ao jogo em termos físicos e tem uma função importante de, quando mais ninguém o consegue, reter a bola contra a defensiva adversária. Soares consegue libertar a bola para finalizar com uma velocidade estonteante, mas pode também ser muito difícil tirarem-lhe a bola dos pés.

     Havendo equipas no campeonato cuja segunda linha - ou pelo menos jogadores normalmente utilizados como suplentes - é notoriamente inferior à primeira, é de se referir que a formação vitoriana tem opções válidas para praticamente todas as posições e de forma bastante eficaz. Se na baliza há João Silva, um dos guarda-redes mais promissores do futebol português, no centro da defesa há a certeza que é João Afonso e o experiente Moreno - que também atua como médio defensivo com a mesma facilidade -, com Bruno Gaspar a fazer valer a sua qualidade para atuar em qualquer corredor lateral. Com Tozé à espreita para um lugar de unidade média mais ofensiva e Bernard a ser um reforço imenso, o leque de opções para extremos ganha outra categoria com a inclusão de Hernâni na equipa durante a próxima época, juntando-se a alternativas como Xande Silva ou Alex. Com Areias a esperar pela oportunidade de brilhar no centro do ataque vimaranense, o instinto fatal de Moussa Marega nos últimos 2 jogos do campeonato podem fazer com que Hernâni seja o utilizado no corredor direito, experimentando, porventura, Marega no centro. Não abundando soluções para todas as posições com a mesma qualidade dos jogadores mais utilizados até agora, o Vitória tem muita competência no banco.

     Um ponto a favor para Pedro Martins é o rumo e o potencial da equipa B do Vitória. A equipa de Vítor Campelos parece estar destinada a fazer um excelente campeonato na Ledman Liga Pro, com elementos de grande qualidade de defesa ao ataque. Seguindo as pisadas da equipa principal, o Vitória B já mostrou não ter problemas em assumir o jogo e tem, de facto, protagonistas com qualidade e inteligência para o fazer. Neste primeiro momento de temporada, alguns dos maiores protagonistas têm sido o defesa Ricardo Carvalho, os médios Tiago Castro e André Almeida - pelo facto de com 16 anos ter atuado em titular nos 3 jogos até agora e com muita qualidade -, o extremo neozelândes Tyler Boyd que abriu o campeonato com um golaço frente ao Santa Clara nos Açores e Bence Biró, hungaro que se mostra ser um autêntico portento físico no ataque.

     Concluindo, Pedro Martins e o Vitória, num só, têm todas as competições para fazer um grande campeonato e ambicionar uma boa campanha nas restantes taças nacionais devido à razoável profundidade do plantel, com os acima mencionados trunfos presentes na equipa B. Apoio não faltará e seria uma surpresa se o técnico de Santa Maria da Feira não repetisse o sucesso que tive na Madeira e em Vila do Conde.

Luís Barreira, Crónica Futebolística

1 comentários

Augusto Vieira disse... @ 28 de agosto de 2016 23:59

jornalismo de fato, artigos que deveriam ser tratados com imagem pelos canais tv associados a este desporto, trabalhem mais a modalidade e não a m...a dos 3 clubes nacionais,

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