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  Há golos que no futebol fazem toda a diferença. Hoje foi dia de Bruno da Silva Lopes experienciar isso mesmo. O avançado do Estoril teve, porventura, a maior fortuna da sua carreira: marcou 4 golos no estádio do Mar perante o Leixões num jogo a contar para a Taça de Portugal. O seu nome tornou-se nesse instante um dos temas mais quentes do futebol português. O brasileiro de 27 anos chegou esta temporada ao clube canarinho e pouco se sabe sobre o seu passado porque este, durante as últimas duas épocas e meia, teve como espaço físico um outro lado do globo. O desconhecido Albirex Niigata foi o clube que contratou Bruno Lopes em 2010 quando este ainda andava por clubes brasileiros. Clube japonês fundado em 1955 que tem no seu currículo como troféu mais sonante uma segunda divisão japonesa. Clube modesto, mas que habita num estádio sensacional.

  O pistoleiro de Niigata¹, como era conhecido pela afición japonesa, pegou destaque na equipa na sua primeira época. Marcou 13 golos na edição de 2011 da J-League, sensivelmente um terço dos tentos da sua formação. É um registo, obviamente, invejável. Confirmou todas as dúvidas existentes nos dirigentes japonesas se ainda as houvesse. Bruno tornou-se um jogador ainda mais completo e virou herói sul-americano em terras asiáticas devido à sua versatilidade e imprevisibilidade. É regra no futebol que um avançado, diria eu, letal, não pode ter brindes. Não pode ter espaço e margem de manobra. Pois bem, Bruno Lopes castigava quem não o fizesse. A prova disso são os golos de meia distância e, uma novidade, os seus golos de cabeça. Porque coincidência ou não a verdade é que o brasileiro desenvolveu imensamente o seu jogo aéreo devido ao facto de nem sempre ter o espaço que tinha no Brasil onde o futebol é mais aberto e propício às jogadas individuais.

  ¹ Bruno Lopes tinha uma excelente relação com os adeptos dos Albi. Um dos seus festejos mais comuns era o de pistoleiro onde fazia das mãos autênticas armas de destruição. E isso fazia dele, bem, um matador. Algo que lhe fazia jus tendo em conta o número e qualidade de golos que foi marcando. Ficou então batizado.

  Um jogador que deve muito a dois elementos que o caracterizam como futebolista: a sua capacidade decisiva de suceder no 1vs1 e, sobretudo, a sua enorme facilidade em mudar de velocidade e colocar-se numa posição favorável para marcar ou assistir. Os brasileiros souberam-no desde cedo: Bruno teve oportunidade de representar 6 clubes como sénior no Brasil. O último foi o Vila Nova e foi curiosamente nesse emblema que teve oportunidade de pôr em prática aquilo que sabia e a arte que dominava. 3 anos depois os japoneses estavam também convencidos. Eis que chegou a notícia do empréstimo ao Estoril.  

Desconhecido para o público português, em geral, Bruno Lopes chegou por empréstimo do Niigata, clube pelo qual 20 golos na principal competição japonesa de clubes, a J-League. Chegou com rótulo de goleador. Ou pelo menos deveria ter chegado. Talvez mais do que isso Bruno seja um desequilibrador. Utiliza as suas frequentes e alucinantes mudanças de velocidade para colocar as defesas adversárias em sentido, além de possuir uma visão de jogo que lhe permite ser e ter movimentos ofensivos duma inteligência acima da média, algo que nem todos se dão ao luxo de possuir.
  A primeira - ou, de resto, a mais sonante - prova da inteligência ou matreirice do pistoleiro foi o golo de calcanhar frente ao Paços de Ferreira. Uma movimentação de grande qualidade foi recompensada com um golpe acrobático que valeu ao brasileiro o crédito por marcar aquele que foi seguramente um dos melhores golos do ano em Portugal. Titular por apenas uma vez, Bruno Lopes procura ainda o seu lugar cativo no XI de Marco Silva. Não é um jogador que se destaque pela força e por isso teve que viver um choque entre a exigência física do futebol português em comparação com a experiência nipónica.

  Fora de campo o antigo avançado do Albirex Niigata é casado e pai duma filha, sendo esses dois dos grandes amores da sua vida. Nasceu em Curitiba e vive agora em Cascais, na constante esperança de dias alegres como o de 4 de janeiro. Porque este fora, provavelmente, um dos melhores dias da sua carreira. O mesmo caracteriza-se como uma pessoa alegre, comunicativa e guerreira. Todos estes adjetivos mais ou menos visíveis em campo, sobretudo o último. E alegria por jogar na Europa, um sonho que Bruno Lopes confessou ter nas redes sociais. Poderia acrescentar que este brasileiro é extremamente modesto e simples: é religioso e uma pessoa muitíssimo grata. Teve oportunidade de referir que levava o Albirex Niigata no coração, uma equipa que mudou a sua vida dentro e fora dem campo.

  O brasileiro está, tal como outros sul-americanos que rumam ao futebol asiático, condenado ao sucesso no Japão. A sua estadia em Portugal ainda não é de todo conclusiva. A segunda metade da temporada será fundamental para a avaliação do trajeto do avançado de 27 anos. Uma coisa é certa: a Taça de Portugal acaba de lhe dar uma oportunidade para agarrar a titularidade. A partida de Luís Leal para a Arábia Saudita abre também portas que todavia ainda não teriam sido abertas. A continuidade no futebol português é incerta e improvável: Bruno ainda tem contrato com o clube japonês. Cabe agora a Marco Silva refletir sobre o momento do brasileiro pois a titularidade pode ser benéfica para ambas as partes. Sem dar por isso Bruno Lopes pode vir a tornar-se fundamental para a manobra ofensiva duma formação canarinha que ficou órfã da sua referência de ataque.

2 comentários

BELA disse... @ 5 de janeiro de 2014 00:24

Maravilhosa reportagem, diz tudo deste Atleta Brasileiro. guerreiro e batalhador. Que a Direção do Estoril veja neste jogador fenomenal suas qualidades e que ele fique definitivamente no futebol Europeu.

Silvio Costa disse... @ 5 de janeiro de 2014 13:45

Para voces lusitanos, pode parecer uma grata surpresa. Vi este menino fazer a incrivel média de um gol por partida

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