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   No futebol português há rivalidades acesas - talvez demasiado em algumas ocasiões - e uma questão muito abordada é o orgulho. Quando em 2008 Cristián Rodríguez assinou pelo Futebol Clube do Porto instalou-se a controvérsia, a polémica e alguma confusão. Afinal não era para menos: um jogador do Benfica tinha assinado pelo maior rival sendo mal visto por muitos. Na massa associativa lisboeta a palavra "traidor" talvez até tenha sido a mais frequente. Fez de certa forma reviver o fantasma da já razoavelmente longínqua memória de 2002, quando Maniche trocou a capital portuguesa pela cidade invicta. No sentido inverso (não exatamente, mas sendo a capital o destino) tivemos o caso de Rui Jorge quando em 1998 trocou o Porto pelos leões do Sporting. Clube esse que representaria até 2005, um ano antes de se retirar da carreira como jogador. Esse mesmo defesa procura agora triunfar com as esperanças nacionais. E, focando-me novamente no ponto das trocas, é assim que se fazem manchetes nos dias seguintes, especulações e mandam-se 1001 bitaites sobre a transferência. Mais recentemente todos nós nos lembramos dum caso que deixou marcas.

  Quando João Moutinho abandonou o Sporting em 2010 o mundo do futebol português ficou perplexo. O 28 do Sporting era o capitão, a referência leonina, o menino que aos 13 anos começou a jogar nos escalões de formação do clube lisboeta e que aos 17 anos foi chamado para fazer a pré-época com Peseiro que agora segue carreira noutro Sporting, mas este do Minho. Num dado curioso e pouco relevante (talvez com mais importância para o próprio técnico) Peseiro já enfrentou a Udinese no comando do Sporting. Datava-se o mesmo mês de Agosto, mas de há 7 anos atrás. E, como dizia antes, Moutinho teve a sua experiência inaugural na primeira equipa aos 17 anos. Mas eventualmente iria voltar para a equipa de júniores, estreando-se na principal num jogo da Taça de Portugal frente ao Pampilhosa em princípios de 2005. A referência dos leões iria abandonar o clube sob a presidência de José Eduardo Bettencourt em 2010 à busca de títulos. Não foram nem mais nem menos do que 4. André Villas-Boas era o treinador da altura. Uma transferência que, apesar de contestada, resultou muito positivamente para o jogador algarvio.

  E agora parto para outro tipo de rivalidades. Até que ponto uma pode ser saudável? Até que ponto duas instituições rivais podem trocar elementos com uma naturalidade imensa? Em Itália isso faz-se que nem dois vizinhos a trocarem produtos agrícolas ou que nem outro a bater-lhe à porta e pedir um par de ovos. Os casos de empréstimos e trocas entre clubes grandes em Itália são assustadoramente frequentes. O caso mais sonante da época é o que envolve os dois rivais de Milão. Jogam no mesmo estádio (como de resto é sabido e não é caso único em terreno transalpino) e são clubes com bastante história no que toca a duelos acesos e intensos. São clubes da mesma cidade, estranho era não serem rivais. Para mais são clubes que procuram constantemente os mesmos objetivos: ganhar troféus. Dito isto associa-se a uma rivalidade entre Sporting e Benfica (para dar o exemplo nacional), até com a particularidade de que Sporting e Benfica não partilham o estádio. Mas a particularidade mor da situação é que há empréstimos e trocas de jogadores dum clube para o outro. Pazzini e Cassano mostram isso mesmo, pois claro. Com diferença dum par de anos (Cassano com 30 e Pazzini com menos dois) os avançados trocam assim de emblema. Pazzini vai passar a vestir vermelho, enquanto Cassano azul. Algo estranho, não? A verdade é que a Itália é propícia a tais sucedidos. Diga-se que, apesar de ambos os clubes terem querido esta troca (e o próprio Cassano já tinha relevado vontade de abandonar o Milan), deve deixar um nó na garganta para os mais orgulhosos fazer este tipo de negociação com o rival. Eu, pessoalmente, não via - mais uma vez um exemplo aleatório - Jackson Martínez a ser trocado com Cardozo. Completamente irreal no futebol português e uma realidade cada vez mais sentida em Itália. 

 Mais do que com trocas, os clubes italianos têm a "mania" de fazer furor com empréstimos realmente sonantes. Esta época já começou nos lados de Milão. Gargano é reforço do Internazionale para esta época. Jogou uma média de 60 minutos por jogo na equipa de Mazzarri na época passada, concluindo-se assim que não deve ter passado muito tempo no banco do San Paolo. De azul claro para escuro, faz-se a observação. O elo que trazia intensidade ao meio-campo do Nápoles vai passar a fazê-lo em San Siro. O pequeno jogador de 1.68 é um dos muitos casos de empréstimos entre clubes de dimensão topo na Itália. No reverso da medalha há, por exemplo, Muntari que já rumou ao Milan por empréstimo do Inter (sendo já comprado a definitivo neste começo de época).


  Ainda se fossem casos únicos...mas não. Quando jogadores acabam o seu contrato com grandes de Itália o destino dos mesmos passa, algumas vezes, por clubes igualmente de renome no mesmo país. Na época passada foi Andrea Pirlo que, transferindo-se do Milan para a Juventus de Conte, venceu a Serie A numa época em que L'Architetto foi muito provavelmente o jogador mais importante da equipa de Turim. Nesta época já marcada pela suspensão de 10 meses de Antonio Conte foi Lúcio quem veio dar (ainda mais) experiência ao sector defensivo da equipa. Duma forma teórica a sua aquisição vem dar ênfase à continuidade do 3x5x2 que tanto sucesso teve no começo de 2012 e que deu um novo fôlego aos bianconeri na contenda pelo campeonato.

  Rivalidades são para sempre, isso é certo. Mas até que ponto elas mesmas devem ser levadas como uma batalha de gladiadores no Coliseu? Os próprios italianos (ironia, lá está) mostram que não tem que ser sempre assim. Se o hábito pega...

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